06/05/2020 às 07h58min - Atualizada em 06/05/2020 às 07h58min

Alguma coisa sobre cagaço e dor da alma

- Peter Falcão
Bairro de Fátima onde presenciei uma execução. Foto: Peter Falcão

Suportar a dor, garanto, não me causa maior dificuldade. Falo da dor física.

Asseguro que extraio os dentes com barbante pouco mais grosso e bem amarrado. Basta concentrar e pensar em dores piores, as da alma.

Com o tempo e bons remédios você supera todas as dores da carne. Do ouvido, estômago, dos músculos, inclusive, o coração. Elas praticamente (me permitam exagerar) saem no suor.

A dor que dificilmente se supera é a da alma. Para alguns, não adianta romper desertos, nem cruzar oceanos. Tão pouco caminhar contra o sol, tocando bumbo, errante, clamando salvação.

Duro pensar que tem gente que se sustenta somente da dor da alma, como o vampiro de sangue. Vivem nas trevas, loucas e soturnas. Em porões da culpa. Com o sol acabam eletrocutadas.

Pior que dor da alma, somente o cagaço. É incontrolável. A lembrança mais remota que tenho do cagaço foi quando tinha 11 anos e residia na casa do meu avô, em Santo Antônio.

Quebrei a vidraça do vizinho cabeceando bola dente de leite. Rapaziada fez vaquinha rapidinho para salvar minha pele. Apelei para Tio Rubinho que estava por lá. No outro dia, bem cedinho, meu querido avô  colocou vidro novinho em folha. Mas a noite foi terrível. A cabeça pesou toneladas.

Aos 12, voltei a morar em Santa Cecília, na casa dos meus pais, mas continuei estudando em Santo Antônio. Ao esperar o segundo ônibus, na General Osório deserta, às 7 horas, dois trombadinhas, com pedaços de pau, me pediram que “passasse tudo”.

Borrado de medo, fiquei igual “dois de paus” e os meninos gargalharam, vendo personificação do cagaço. Como só tinha a merenda (pão com carne de porco) e passes escolares do dia, me deixaram em paz.

Em 2009 foi cagaço e tanto. Devido a abuso de remédios para dor de garganta e gripe, o coração inchou. O médico, como quem manuseava punhal de prata nos meus ouvidos, receitou três remédios que deveriam ser tomados imediatamente, devido risco de morte. Lembro deles: Furosemida, Aldactone e Concor.

Foi cagaço enorme atravessar a Avenida Vitória atrás de farmácia redentora que adiou meu ingresso no purgatório.

O cagaço chega inesperadamente. Assim ocorreu comigo e minha sócia, na Pauta Livre, Lorena Andrade, lá por 2015.

Glutões, cismamos de comprar salgadinhos no Bairro de Fátima, após dia estressante em nosso escritório em Jardim Camburi.

Ligamos antes e os encomendamos. Os preços eram convidativos, o problema foi a má digestão que veio depois. Talvez maior do que a própria dor da alma.

Paramos em frente ao trailer. O rapaz nos pediu para esperar cinco minutos. Sinceramente, não tínhamos motivo algum para olhar o outro lado da rua, mas olhamos. Sujeito magro, com revólver na mão, agindo naturalmente como quem faz a barba, meteu bala em outro que bebia cerveja, como quem não devesse nada a ninguém. Tem gente que adora ser vacilã. Esta nem Deus perdoa.

Vimos com perfeição a treta. Foi balaço que pegou em cheio. O atirador correu para beco. A rua paralisou, dos dois lados. Um minuto depois tudo voltou ao normal.

Mas só aparentemente. Até hoje pensamos no crime que, tratamento de choque, liberou adrenalina em excesso e apagou da memória pequenas dores. As da alma, logicamente, ficaram.

Voltando ao assunto: cagaço é cagaço. É pior que tsunami, prezado. Quando chega carrega quase tudo. Evidentemente, devemos preferir tratar as pequenas dores com doses fitoterápicas.

Sentimentos como as dores da alma, que podem romper décadas, não se resolvem com balaço, como a treta no Bairro de Fátima. Pelo menos em corpo alheio.


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