13/05/2020 às 11h46min - Atualizada em 13/05/2020 às 11h46min

Entre águas verdes, azuis e roxas, o sentimento da insignificância perante a vida

- Peter Falcão
Foto National Geographic
 

 

 

Tinha acabado de voltar da Paralimpíada de Sydney e estava com adrenalina à mil. 

 

Confirmei, da janela do avião, o que alguns conhecidos me disseram em Vitória, quando voltaram de lá, e eu demorei a acreditar. 

 

Em determinado trecho do voo, sobre o Oceano Índico, observa-se, ao olhar para a frente do avião, a escuridão.  E ao olhar para trás dele, no mesmo segundo, forte luz do sol.

 

Cismei de fazer matéria especial para o jornal sobre um dia de pesca do marlin azul. Telefonei para fonte do Iate Clube e consegui contato com um comandante que topou nos levar para a aventura.

 

Marcamos às 6 horas da manhã. O comandante, proprietário de fazendas de mamão em Linhares, foi bastante acolhedor. Na lancha fomos seis: o comandante, seu irmão, dois rapazes que prestavam serviços no Iate Clube, acostumados à atividade, o repórter fotográfico Fábio Vicentini e eu.

 

Depois de duas horas de navegação, você observa de longe somente a parte mais alta do Mestre Álvaro. Foi nossa última visão da terra. 

 

Depois somente água verde para todos os lados. Navegando milhas mais para dentro, já se encontra água azul, que não se mistura com a verde. Depois, a roxa, de maior profundidade, que não se mistura com as duas primeiras. São grandes extensões destas águas que nos remete à incrível solidão e insignificância.

 

Foi só o comandante jogar as iscas artificiais em três varas para que os dourados não parassem de ser fisgados. Trouxeram para a luxuosa lancha mais ou menos 15. Percebi pela expressão dos dois rapazes que aquele seria o “pagamento” deles.

 

Um dos dois preparou risoto de frango, que foi nosso almoço. Tinha cerveja também, mas, quente demais, só rolou após as 17 horas, na viagem de volta.

 

No meio da aventura, cruzamos com pescadores de tubarão, que nos apontaram armas bem pesadas, pelo menos umas quatro, para que parássemos de olhar suas atividades, com equipamentos ilegais.  

 

Navegando mais um pouco, longo trecho estava todo cercado por espinhéis, espécie de armadilhas para peixes grandes em nítida pesca irregular.

 

Irritado, o comandante fez movimentos de cortá-los com a lancha. Do nada, surgiu barco com pescadores também fortemente armados. A nossa tripulação teve que dar volta enorme para evitar conflito.

 

O comandante fisgou um marlin branco, bem mais comum em nossa costa. Fábio Vicentini, competente como sempre, fez boas fotos e me deixou tranquilo. 

 

Na minha cabeça, a matéria não tinha como não ilustrar a primeira página no domingo (como ilustrou). O marlin foi solto. Depois fisgou um atum de ótimo tamanho. Os dois rapazes vibraram.

 

Estávamos já pensando em voltar, mas, a lancha teve solavanco impressionante para baixo, como se tragada pela força de um dinossauro. Tremi todo, parceiro.

 

O comandante gritou: “É o azul, é o azul”. A equipe se mobilizou. Tudo teve que ser adaptado por ali. O marlin azul é tão forte que puxava por alguns metros a lancha. A esperança era somente uma: ele cansar. Mas isso não ocorreu. Durante dez minutos a batalha foi ferrenha, mas o marlin conseguiu escapar.

 

Voltamos para Vitoria um pouco frustrados. Mas na minha memória, durante muito tempo, aquela aventura ficou determinante. Foram momentos mágicos, no meio do “nada”.

 

Ao desembarcamos no Iate Clube, o comandante ordenou aos rapazes para limpassem dois dourados e nos presenteassem. Um para o Fábio e outro para mim. 

 

O Fabio foi embora. Eu bebi uma cerveja e depois voltei lá, em setor no Iate onde se limpa peixe, para pegar os dourados. Os rapazes estavam comentando, enfurecidos, a ordem do comandante. Percebi, rapidinho, que já estava em “terra firme”.

 


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