18/05/2020 às 19h34min - Atualizada em 18/05/2020 às 19h34min

Assisti a show inteiro do Magno Malta por causa do Jacozinho e da Inocoopes

- Peter Falcão
Foto Reprodução/Rede Globo
Era colaborador da Revista Placar no Espírito Santo. Meu trabalho não exigia nenhuma intelectualidade. Somente disciplina.

Toda segunda-feira enviava por meio de Fax (extrema modernidade na época) fichas dos principais jogos e a tabela atualizada do Capixabão de futebol.


No final do mês, recebia graninha que tirava, brevemente, a conta do vermelho.

Na ocasião, pagava prestações da Inocoopes (que duraram sete longos anos), para a compra de apartamento onde moro desde 2001.

Cheguei na redação e li na pauta que deveria fazer matéria com o Jacozinho, atacante sergipano que brilhou no CSA, de Alagoas, e que, ótimo marqueteiro, fez parceria com o Márcio Canuto, repórter da Rede Globo, merecendo matérias semanais que o tornaram muito famoso.

Eu era fã do Jacozinho, embora tivesse achado sacanagem ele entrar, de penetra, na festa da volta de Deus ao Flamengo, em julho de 1985, quando o Mengão enfrentou a Seleção do “Resto do Mundo”.

Na ocasião, Jacozinho foi levado ao Rio por uma rádio e, depois de alguma negociação, sentou no banco de reservas. A torcida, no segundo tempo meio morno, pediu e Telê Santana o colocou em campo.

Com belo passe de Maradona, ele driblou o goleiro Cantarelle e estufou a rede. Flamengo venceu por 3 a 1, Deus retornou, mas quem roubou a festa foi o ídolo do CSA.

Voltando à redação. Difícil não se encantar com o “Jacó”. Carismático, humilde e bem humorado me concedeu bela entrevista, mas com alguns exageros.

Foi fácil perceber que estava acrescentando temperos demais à sua história para causar impacto. Principalmente em relação às drogas.

Nos despedimos com abraço. A matéria ficou bacana e foi para a primeira página, mais pelo lado folclórico. O lado punk deixei de fora. Não senti firmeza nas palavras do entrevistado.

Cheio de contas para pagar, fiz resumão e enviei, com pouca pretensão, para os contatos da Revista Placar.

Para minha surpresa, os caras aceitaram a sugestão de pauta e me pediram para acompanhar o Jacozinho durante, se possível, uma semana.

Pensei: “Ferrou”, mas olhei os boletos da Inocoopes e aceitei a tarefa.

O problema é que, no mesmo dia, descobri que o Jacozinho trabalhava para o então senador Magno Malta e que no sábado à tarde seguinte atuaria em partida no Engenheiro Araripe, que reuniria “Amigos de Jacozinho” versus “Amigos de Magno Malta”.

Como tinha a pauta da Revista Placar acabei marcando presença no estádio e não foi fácil.

Ao chegar lá, imediatamente, veio à minha cabeça: “Beleza pastor, humilhados serão exaltados”.

O amistoso, como previsto, foi lamentável. Começou com atraso monstro. O sol castigou, impiedoso, e quando a sombra chegou Magno Malta e seu grupo de pagode, o “Tempero do Mundo”, cantaram durante mais de uma hora.

Na moral, se tivesse tendência suicida deitaria, em solo esplêndido, ali mesmo. Até Highlander, bateria as botas, presumo.

Mas a vida tem que seguir e as prestações da Inocoopes são piores do que espadas afiadas. Cortam, como serras elétricas, cabeças inadimplentes.

Fiz a matéria: seis laudas. Enviei para a Revista Placar e o editor “adorou”. Comprei a edição do mês seguinte e nada da reportagem.

Desanimado, mas não surpreso, recebi a ligação de repórter esportivo muito famoso, que trabalhou na ESPN e escreveu inúmeros livros de variedades.

“Oi, Peter o pessoal amou sua matéria, mas está preocupado porque você é empregado de A Gazeta, do Grupo Globo, e a reportagem é meio crítica sobre a relação do Jacozinho com o Márcio Canuto. A ideia é alguém daqui refazer e assinar. Mas, logicamente, vamos pagar as suas laudas, se aprovar. O que você acha?”.

Como não tinha onde vomitar para agradecer tamanha generosidade, tão pouco motivação maior de ter matéria na Revista Placar (e o boleto da Inocoopes me sorria sobre a mesa), concordei.

No mês seguinte, a matéria com o Jacozinho foi uma das principais da revista. Somente um parágrafo escrito por mim, de cinco linhas, foi utilizado e não fui citado nem no rodapé da reportagem. Mas, a grana foi, digamos, digna. Mais ou menos 30% do que ganhava em um mês no jornal.

Jacozinho morou no Espirito Santo durante, se não me engano, uma década. E sempre que o encontrava brincava: “Putz, Jacó, por sua causa assisti a show inteiro do Magno Malta”. Ele ria de forma discreta. E eu, deliciosamente.
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