26/05/2020 às 18h07min - Atualizada em 26/05/2020 às 18h07min

Fui um dos 15 presentes no casamento de tetracampeão mundial

Como alquimista, o repórter precisa sempre transformar fatos em algo precioso para o leitor

- Peter Falcão
Foto Getty Images


Repórter sem sorte não existe. Se for preguiçoso, então, nasce morto. Sempre tive sorte e batalhei, arduamente, nestes 31 anos de profissão.

No começo de carreira, nos distantes 1989, minha balada profissional era das mais intensas. Sabia que ali residia, na redação de A Gazeta, a sobrevivência e, empregado, seria pouco menos complicado, com 120 quilos, realizar sonho: encontrar namorada.

Como alquimista, o repórter precisa sempre transformar fatos em algo precioso para o leitor. Imprimir sua visão de mundo nas entrelinhas, se possível sem maiores firulas.

Meu editor, Álvaro Silva, recebeu ligação de amigo tabelião dizendo que em uma hora o zagueiro do Flamengo, Aldair, casaria em cartório localizado na Praça Costa Pereira, no centro de Vitória.

Neste dia, especialmente, contei com a sorte. Foram escalados repórter fotográfico e motorista bastante ágeis para apurar o evento. Afinados, em 30 minutos já estávamos sentadinhos em banco da Costa Pereira.

Avistamos, naquele sol infernal das 14 horas, algo exótico: jovem de terno branco de linho, gravata azul e imensos sapatos pretos, descendo a escadaria São Diogo, aquela dos shows memoráveis do projeto “Noites Capixabas”, que liga a Catedral à praça quase centenária.

Era o Aldair, que alguns dias depois teria que viajar para Portugal, onde defenderia o Benfica. O baiano de Ilhéus, com 1.82 metro e jeito tímido, se assustou quando nos viu, mas nos cumprimentou com sorriso discreto e acolhedor nos lábios.

Na mesma hora chegou a noiva, linda, com bochechas bem acentuadas pela maquiagem. Subimos as escadas do sobrado antigo, sem problemas, até o salão. Somando todos os presentes, incluindo os noivos e o juiz, nem 15 pessoas presenciaram o casamento.

No outro dia, a matéria foi manchete da Editoria de Esportes e mereceu também a primeira página. Lembro até hoje, como a comecei: “Dezoito minutos. Este foi o tempo que durou o casamento do zagueiro do Flamengo, Aldair, com a estudante capixaba, Cláudia Rosetto, realizado, ontem, em cartório localizado na Praça Costa Pereira, centro de Vitória”.

Anos depois, o Aldair foi campeão mundial pela seleção brasileira na Copa dos Estados Unidos. Já havia se consagrando, um ano antes, defendendo a Roma, da Itália. Era um dos melhores zagueiros do mundo.

Cansado, após tantas comemorações, desembarcou em Vitória e foi para a casa dos familiares da esposa, na Avenida Santo Antônio, mais precisamente na Volta do Rabaiole.

Ficamos horas de plantão e ele não apareceu. A garotada percebeu a presença do Edmilson Ávila, hoje na Globo Rio, e começou a pedir autógrafos.

Um garoto, digamos, desavisado, pediu autógrafo para mim também. O repórter fotográfico Chico Guedes, atento, fez o registro, que foi publicado no jornal interno de A Gazeta. Começou ali minha fama. Pelo menos dentro da empresa.
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