03/06/2020 às 14h28min - Atualizada em 03/06/2020 às 14h28min

Beijoca e a angústia, sem fim, na busca pela mãe desaparecida

Janc, grande revelador de talentos do futebol, com a Copa A Gazetinha, me apresentou o Beijoca

- Peter Falcão
Peter Falcão
Beijoca - Foto Divulgação/TV Bahia
Meu pai torcia pelo Fluminense. Eu fiz isso, com relativa convicção, até, mais ou menos, os seis anos, quando vi meus primos e meu tio Djalma tristes, em Santo Antônio, após Botafogo golear, impiedosamente, o Flamengo, em outubro de 1972, por 6 a 0.

Foi duro demais para meu coração. Resolvi fazer, então, meu pai sofrer e passei a vestir rubro-negro. Logicamente estou descrevendo rasamente situação muito mais profunda.

Ninguém opta por quem se apaixonará. Ser flamenguista não é escolha. Acontece. O sentimento lhe rapta, intransigente. E você vai de cabeça.

Precisaria de muitas páginas para explicar. Como não as tenho, é melhor seguirmos em frente.

Meu pai “engoliu” esta “virada de folha”. Na verdade, fingiu que “engoliu”, introspectivo que era.

Mas, anos depois, assistimos juntos a jogos de grandes escretes. Adorava o cheiro de sabonete que exalava do seu corpo quando víamos o Palmeiras, de Ademir da Guia.

Depois, o observava discretamente vibrar com a “Máquina”, do Tricolor Carioca, com Rivelino e companhia.

Quando o Mengão, do Zico e Júnior, começou a ganhar tudo, ele manteve-se atento, deliciando o belo futebol.

No ano de 1979, contudo, nos deparamos observando algo exótico:  atacante, muito acima do peso, que Flamengo contratou do Bahia e que entrava em campo e, rapidamente, arrumava confusão e era expulso.

Logicamente, posso estar sendo injusto com o Beijoca. Aliás, certamente estou, mas é o que vem na memória quando, agora, penso nele. Flamenguistas entenderão.

A lembrança que ficou foi ele entrar em campo e arrumar briga contra o Palmeiras, que massacrava o Mengão no Maraca, goleando por 4 a 0, nas quartas-de-final do Brasileirão.

No Flamengo, sentadinho no banco, foi campeão carioca e do Troféu Ramon de Carranza, na Espanha. Esteve em nove jogos e anotou um golzinho.

Algo inacreditável se pensarmos que fez mais de 600 gols, atuando por 18 clubes.

Navegando um pouco mais, o Janc, grande revelador de talentos do futebol, com a Copa A Gazetinha, me apresentou o Beijoca, na Redação de A Gazeta, durante edição da competição (uma das mais importantes das Américas na revelação de talentos), quando treinava o Bahia.

Ao vê-lo tentei manter criterioso distanciamento, mas foi difícil. Amo personagens controversos do futebol. Muito mais do que os garotos repletos de perfumes e hipocrisia.

Falou-me que nasceu no Pelourinho, em Salvador e que começou muito cedo no futebol profissional, com 16 anos. Marcou quatro gols em uma partida e foi logo promovido. O apelido veio porque comemorava gols mandando beijos para a torcida. Nas peladas na infância e depois nos estádios.

Pouco treinava. Dormia geralmente, no seu auge, em casas de prostituição com damas da noite que o juravam amor eterno.

Com noitadas perdeu todo o dinheiro. Devido às brigas em campo encarou 14 processos. Sofreu infiltrações nos joelhos para poder atuar e consumiu variadas drogas.

Em viagem internacional, quando atuava pelo Flamengo, beliscou traseiro de aeromoça e quase provocou pouso forçado em Paris. Com Zico e o comandante do avião enfurecidos, pediu desculpas.

Na redação, mostrou-se educado e consciente. Evangélico, sorria, de forma sincera, ao falar de suas atividades, alertando jovens sobre o risco das drogas e de vida indisciplinada, nas inúmeras palestras em escolas de Salvador e interior baiano.

No final da entrevista, cheia de detalhes sobre sua carreira e o trabalho com equipes de base do Bahia, me pediu um favor: ajudar a encontrar sua mãe.

Segundo Beijoca, sua mãe era moça alegre, cheia de vontade de viver a vida e que sofreu com o conservadorismo do início dos anos de 1950.

Por motivos variados, dentre eles pequenas desavenças e atividades profissionais da sua mãe em outros Estados, perderam contato.

Ele apostava que ela estava, talvez, com vergonha de “aparecer”, agora que era maduro e famoso no meio futebolístico.

Temia, logicamente, também que ela estivesse morta.

Perguntei qual atividade sua mãe exercia.

Ele recuou e argumentou que não tinha convicção se queria mesmo divulgar a história.

O pedi para pensar bem e me telefonar se concordasse. Anotei seu celular também porque “senti o cheiro” de estupenda primeira página.

Fui escrevendo a matéria, deixando espaço para o primeiro parágrafo na lauda de papel.

Já tinha dez anos de Jornalismo e certeza absoluta que o Beijoca me ligaria. Não deu outra.

Depois de mais ou menos uma hora, o atacante me ligou, autorizando escrever sobre conteúdo da entrevista e acrescentando que a sua mãe havia sido “dama da noite”.

No outro dia foi bela primeira página. Mas, sinceramente, não posso afirmar que Beijoca encontrou sua mãe, que nasceu em um dos municípios da região que envolve Ibiraçu, Aracruz e Fundão, segundo pesquisas dele.

Não posso inventar final feliz para história comum a muitos brasileiros, largados, por motivos variados, por quem mais deveria ama-los.

Mas, torço sim que Beijoca tenha encontrado sua mãe. Encontrar respostas para a angústia, prezado, é bom caminho para viver um pouco mais esta longa trajetória.

É o homem e sua eterna busca pela identidade. Concorda?


 
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