10/06/2020 às 18h56min - Atualizada em 10/06/2020 às 18h56min

Nelson Piquet e sua cáustica visão sobre sentimento humano

Piquet foi tricampeão mundial de Fórmula 1 nos anos de 1981, 1983 e 1987

- Peter Falcão
Nelson Piquet Souto Maior - Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1952 - é um ex-automobilista e empresário brasileiro > Divulgação

Pelo jeitão informal, sempre gostei mais do Nelson Piquet do que do Ayrton Senna, embora gostasse muito deste segundo também.

 

É que Piquet me “pegou” também em momento mais emocional do que profissional, o da adolescência.

 

Sempre quis estar perto dele um dia. Como considerava tanto difícil, absorvi, sem cerimônia, muito de suas entrevistas.

 

Certo dia estava na redação de A Gazeta e soube que o grande piloto pisaria no dia seguinte em Vila Velha, promovendo sua empresa de segurança de caminhões via satélite.

 

Agendei entrevista de esportes com sua assessora de imprensa e esperei, com o repórter fotográfico e grande amigo, Ricardo Medeiros, no saguão do Pasargada Hotel, a sua chegada.

 

Não demorou muito e apareceu o Nelson extremamente bem-humorado. Disse-lhe que era seu fã e ele mandou de volta. “Porra, você é velho para caramba”. Rimos todos.

 

Fui com o dever de casa muito bem feito. Perguntei a ele se o Galvão Bueno continuava “falando merda” sobre a Fórmula 1. Ele se empolgou, amava alfinetar o narrador.

 

“Este não tem jeito. Não para de falar bobagem, não. No último Grande Prêmio de Mônaco, Rubinho entrou forte na traseira de outro carro, dentro do túnel e Galvão tentou justificar, visando a livrar a cara dele”, comentou.

 

“É regra universal: quem bate atrás está errado. Quem conhece automobilismo sabe.

As vezes até deixo a televisão sem volume para não me aborrecer”, disse (e logo gargalhamos).

 

Teve época, em suas entrevistas, que Nelson vivia falando mal da seleção da Copa de 70. Para ele, qualquer time brasileiro do início dos anos 2000 ganhava fácil dela.

 

Indaguei se a sua opinião continuava a mesma. Aí, ele me contou encontro com Pelé, no Aeroporto de Brasília, onde residia.

 

“Piquet, jogávamos debaixo de sol forte, no México, e, às vezes, na altitude. Por isso, o futebol tinha que ser pouco mais lento”, disse-lhe o Rei.

 

Nelson riu para nós, botou a mão na cabeça, como se estivesse arrependido, e brincou. “Naquela hora percebi que havia falado muita besteira e que realmente não entendo nada de futebol”.

 

Disse a ele que muitos estavam considerando a Fórmula 1 meio tediosa diante de supremacia do Michael Schumacher, prestes a conquistar o sétimo título.


Ele, mandou de primeira. “Tediosa nada, fale isso para o povo alemão”.


Então perguntei, “como vencer o alemão? ”.

 

Ele rapidinho respondeu. “Somente com uns dez quilos de macumba. Falei dia deste para o Rubinho, brincando”, gargalhamos.

 

No outro dia a matéria foi destaque na página de Esportes com o título: “Nem macumba dá jeito em Rubinho, afirma Piquet”.

 

De folga em casa, gargalhei ao ler.

 

Esqueci de dizer que, ao me despedir de Piquet, perguntei se ele ainda pensava o que externou durante programa Roda Viva (realizado em função da morte do Senna), ao destacar que boa parte das pessoas assistia a Formula 1 torcendo para que os pilotos batessem os carros.

 

“Você tem dúvidas. Uma das alegrias de muita gente é ver o outro se ferrar. Isso não vai mudar nunca. Tchau”. Foi sua resposta.

 

Lembrei, então, antes de dormir, de quando trabalhava em banca de revistas, no cruzamento da Costa Pereira, e ouvia, pelo menos uma vez a cada 15 dias, o barulho único e estarrecedor dos ossos, principalmente dos idosos quase cegos, sendo triturados durante atropelamento.

 

E observava, sentado no banco de madeira, perplexo, a turma das lojas e bares correndo pelo beco, com olhos brilhando e sorriso no rosto, para ver os corpos e suas múltiplas fraturas e vísceras expostas.

 

Devo confessar: você tem razão, tricampeão. Você tem razão!


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