16/06/2020 às 18h08min - Atualizada em 16/06/2020 às 18h08min

Amaral me ensinou: a vida nada mais é que imenso redemoinho

Alexandre da Silva Mariano, mais conhecido como Amaral é um ex-futebolista brasileiro que atuava como volante


A seleção brasileira, em preparação para a Olimpíada de Atlanta (EUA), fez amistoso contra a Polônia, em julho de 1996, no primeiro jogo oficial do Brasil no Estado, mais precisamente no Engenheiro Araripe.


E A Gazeta me hospedou no hotel onde ficou a delegação, em Nova Almeida.


A ideia era enviar matérias diárias sobre os bastidores da delegação. Foi o que eu fiz. Na ocasião, a Internet (que começou de forma restrita no Brasil no final da década de 1980) acabava de ser explorada comercialmente, mas, geralmente, caríssima e por linha telefônica. 

 

Enviava matérias, produzidas na minha máquina de datilografar, via Fax aproveitando gentileza do hotel. 

 

Quando ouvia o sinalzinho indicando “finalizado” era a senha para beber deliciosas cervejas que na nota fiscal eram descritas como “água”. A verba do jornal me garantia cinco garrafinhas de água por dia (além de, logicamente, café, almoço e janta). Nada mal para a justa troca por quatro latinhas.

 

Não existia na mídia a democratização de hoje, oportunizada pelos mais variados canais. Matérias especiais somente com personalidades que "vendiam" jornais ou revistas, por méritos esportivos ou por alguma bizarrice ou exotismo.


Com isso, somente os mais fanáticos por futebol tinham conhecimento profundo sobre a vida dos atletas comuns, que amavam ser alvos, exatamente para deixar de serem comuns.


Eu era totalmente ligado ao esporte olímpico e sabia (do futebol) com mais detalhes, apenas da trajetória de grandes craques. Ou de maluquetes geniais.


Do Amaral sabia quase nada, mas lembrava de atuação brilhante que teve contra a Argentina, lá dentro, quando, com fôlego invejável, anulou craques portenhos na vitória do Brasil por 1 a 0, gol do Donizete Pantera.


Em um dos salões do hotel, o vi passar, após café da manhã, com pequeno prato na mão, com três pedaços de goiaba vermelha, cortados em partes iguais. 

 

Solicitei entrevista e ele prontamente atendeu. Sentamos em duas cadeiras de palha trançadas e ele me contou, com olhar no vazio, muito sobre sua vida.

 

Fiquei perplexo quando me disse que quando bebê, “reza a lenda” familiares pensaram em jogá-lo no Rio Capivari, interior de São Paulo, diante da grave crise econômica que viviam. 

 

Que trabalhou duramente como engraxate, carregador de compras, ajudante de pedreiro, capinador e até lavando e maquiando corpos em funerária para sobreviver. 

 

Que pouco conviveu com o pai, que morreu, de cirrose, quase em seus braços. 

 

Que a mãe foi morar em um sítio e quem praticamente o criou foi a avó, vendendo batatas na cidade.

 

Não foi fácil cobrir os bastidores da seleção, ainda mais porque o clima estava tenso na redação que perdia velozmente espaço para A Tribuna e também em função da greve da Polícia Civil. 

 

Na madrugada, após jogo do Brasil, populares invadiram o hotel. Até hoje não sei de onde saíram tantos funcionários para colocá-los a correr. Observei do segundo andar, com frio danado na espinha.

 

Até hoje tem gente que jura que vários atletas visitaram as primas naquela noite. Não presenciei e, sinceramente, não vejo nenhuma importância nisso.

 

Voltando ao Amaral, na verdade, o ar estava punk e quem é jornalista, prezado, precisa superar tudo e teclar, com voracidade, as “pretinhas” para não perder seu emprego para algum iniciante que receberá, com boa vontade da empresa, a metade do seu salário (e com muito bom grado).

 

Fui para o quarto e chorei ao ouvir no gravador a voz do jogador e suas histórias contadas com extrema naturalidade, nada de vitimismo. 

 

Foi bela lição de vida que guardo até hoje, mais de duas décadas depois.

 

A existência é um redemoinho. Amaral jogou em muitos clubes, ganhou títulos, foi bronze naquela Olimpíada, enriqueceu, perdeu tudo, se reergueu. Ou seja: viveu plenamente a vida.

 

Mal comparando, eu estive em alguns dos maiores eventos do mundo, como as Paralimpíadas, Olimpíadas, Jogos Pan-americanos e Campeonatos Sul-americanos, Ibero-americanos, Pan-americanos e Mundiais.

 

Lembro que ao voltar para o cotidiano da redação, após o amistoso do Brasil e Polônia (3 a 1 Brasil) jovem morena, bonita e cheio de brilho no olhar me solicitou entrevista, por meio do colega jornalista, Fernando Kunsch.

 

Era universitária e confessou que apreciava meu trabalho, citando, inclusive, a entrevista com o Amaral. 

 

Foi a Elaine Silva, editora executiva e atual número um do jornalismo de A Gazeta. A vida: este edificante redemoinho.

 

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