07/07/2020 às 16h19min - Atualizada em 07/07/2020 às 16h19min

Perplexos, em Sydney, omitimos declaração de grande estrela do Time Brasil

A delegação contou com quase 30 jornalistas. Fui o único do E

- Peter Falcão
Rosinha - Fotocom

A convite do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), a editoria de Esportes do jornal A Gazeta me enviou para cobrir a Paralimpíada de Sydney, em 2000. 

 

A delegação contou com quase 30 jornalistas. Fui o único do Estado. A ideia era divulgar, de forma ampla, o esporte paralímpico no Brasil.

 

Foi viagem das mais longas de avião, com direito a dois dias na África do Sul, devido à número excessivo de voos para a Austrália, naquele momento, em função do evento.

 

 

Cobertura internacional tritura ossos. A disputa é intensa entre os profissionais da imprensa. Mas eu sou negão amigo e suburbano. A casca é dura. Pronta para a porrada. 

 

 

A delegação brasileira havia fracassado na Olimpíada, encerrada duas semanas antes, não ganhando sequer uma medalha de ouro. O clima era de desconforto.

 

Mas na Paralimpíada, finalmente, o Jornal Nacional pôde anunciar, logo no primeiro dia, medalha de ouro no judô com Antônio Tenório.

 

O Time Brasil ganhou muitas medalhas, no total 22, sendo seis de ouro. A da natação foi conquistada pela brilhante Fabiana Sugimori. 

 

Foi no atletismo, certamente, que o Brasil teve brilho mais intenso. Com Ádria Rocha, cega, que ganhou ouro nos 100 e 200 metros rasos e com a Roseane dos Santos, amputada, que foi ouro nos lançamentos de peso e de dardo.

 

Já estávamos quase um mês fora do país e a saudade apertava. Na véspera de encerramento da Paralimpíada, dirigentes e principais destaques, dentre os atletas, foram reunidos na última coletiva, na Casa Brasil, tenda imensa, dotada de total estrutura, onde podia-se beber deliciosa kayser em garrafinha. Bastava abrir o freezer.

 

Rosinha, como era chamada a Roseane dos Santos, ouviu a primeira pergunta sobre como se sentia campeã paralímpica em duas provas e lançou no ar:

 

“Agradeço a Deus por ter sofrido o acidente e, agora, poder estar aqui vivendo esta felicidade. O atletismo mudou a minha vida para melhor”.

 

Rosinha, nasceu em Maceió, mas que viveu a maior parte do tempo em Pernambuco, onde teve parte da perna esquerda amputada ao ser atingida por caminhão desgovernado, conduzido por jovem alcoolizado. 

 

Até os 19 anos trabalhava como empregada doméstica. Começou a competir com 28 anos, descoberta pelo treinador Francisco Raimundo Matias que a observou conversando com amigas na calçada.

 

Voltando à Sydney. Encerrada a entrevista ficou meio anestesiado o ar para os mais de 15 jornalistas presentes. E pergunta pairava soberana. “O que fazer com a primeira frase da Rosinha?”.

 

Nos reunimos e sem muita discussão (algo raro em debates de jornalistas) optamos por não divulgar. Consideramos contraditório demais alguém se sentir feliz ao ter perna amputada por caminhão, mesmo ganhando ouro paralímpico.

 

No outro dia, nenhum órgão de imprensa divulgou a frase. E nem se tocou no assunto nos pubs que frequentávamos.

 

Até hoje, sendo sincero, nunca vi única linha sobre a declaração.

 

Mas, cá para nós, a fala, mesmo sob forte emoção, retrata, de certo modo, a falta de perspectivas de muitos jovens da periferia brasileira. E olha que já se vão 20 anos.

 

Vinte longos anos.

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