15/07/2020 às 08h55min - Atualizada em 15/07/2020 às 08h55min

Protocolos de retorno às aulas

Serenidade, responsabilidade e espírito público são essenciais no tratamento do tema

- Everaldo Barreto Moura
O principal ponto do protocolo é o monitoramento de ações preventivas junto às famílias. Foto>>>>Ilustração Internet
Observando o protocolo construído em Santa Catarina para o retorno das aulas presenciais na educação infantil, penso na dificuldade ou quase impossibilidade de implantação de coisa parecida, aqui em nosso estado, bem como na maior parte do pais.

Os principais pontos do protocolo são: redução do número de alunos, rodízio, desinfecção dos ambientes, oferta de álcool em gel, monitoramento de ações preventivas junto às famílias e supressão dos uniformes para permitir a utilização de roupa limpa a cada dia.

Tendo em vista as precárias condições econômicas, sociais, de saneamento, moradia e também cultural das periferias, que são a maioria dos usuários da escola pública, fica muito difícil vislumbrar o cumprimento desses protocolos.

Como uma família poderá administrar sua vida, com os filhos indo à escola numa semana e ficando em casa noutra, se os pais ou responsáveis não têm esse mesmo rodízio em seus trabalhos? Como a escola poderá monitorar ações preventivas junto às famílias, com suas condições de moradia precárias, muitas vezes sem saneamento e com falta de espaço?

Sabendo que muitas crianças têm pais ausentes, são monitoradas por irmãos mais velhos, dormem aglomeradas em pequenos espaços, que os territórios de periferia têm acúmulo de lixo devido à ineficiência da coleta, que não tem roupa e recurso suficiente para estar todos os dias com roupa diferente e limpa, fica difícil vislumbrar o cumprimento desses protocolos.

Todos sabemos que o Estado sempre teve grandes dificuldadesde oferta de serviços de qualidade à população, sendo muito comum encontrarmos escolas precarizadas, em que somente os esforços supra-humanos de um tipo especial chamado “professor(a)” para faze-las funcionar.

É difícil imaginar desinfecção constante do ambiente e oferta de álcool em gel nas escolas, até então com dificuldades para manterem higienizados os banheiros e mais difícil ainda será manter o distanciamento social.

Naturalmente estará na mão do Estado essa decisão de retorno, mas invocando aqui Immanuel Kant, o Estado reflete o cidadão, ou seja, a lei é imperativa para ele: “deves por que deves” por que, nesse estado kantiano, o cidadão se sente autor da lei.

Assim sendo, para que o retorno do funcionamento presencial da educação aconteça é fundamental uma ampla discussão, envolvendo a população a comunidade escolar junto com o Estado uma vez que serão necessárias grandes intervenções para operacionalizar esse retorno.

Um outro aspecto da educação pública que não podemos esquecer é o seu histórico de descaso e precarização, que levam seus usuários a enfrentargrandes desvantagens na competição social e no mercado de trabalho com os advindos da escola privada.

As escolas privadas, por se tratarem de negócio e terem um público diferenciado,clamam pelo retorno à normalidade, mas se tendo as duas redes funcionando normalmente essa diferença já era covarde, é fácil imaginar o quanto essa covardia vai aumentar em um novo normal, ante as dificuldades apontadas para a adaptação da escola pública.

Os governos precisam atentar a todas as nuances da questão e agir com responsabilidade social, para não piorarem o que já não estava bom e a população garantir a sua voz no processo de tomada de decisão.
 
 
 

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