06/05/2021 às 10h33min - Atualizada em 06/05/2021 às 10h33min

Gabino Rios tatuou seu estilo na arbitragem capixaba!

Era o juiz que apitava jogos com faca peixeira na cintura

Pauta Livre Assessoria
- Peter Falcão
Dedicou sua vida toda à arbitragem e criou uma escola, um estilo, tatuou, de certa forma, sua marca. Foto: Reprodução Web

Eu defendia, com a camisa oito, as cores do River Plate, do companheiro da sala de aula, no Ludovico Pavone, Alperson Fernandes, nos torneios realizados no campo de grama, com medidas quase oficiais, da escola.

Tinha algum talento, mas temor absurdo pelas bolas divididas, devo confessar. 

 

Imponente, nos abraçava a Basílica de Santo Antônio, obra de estrutura arquitetônica de origem romana e de significado imensurável para o Espírito Santo. 

 

Jogávamos descalços. Tínhamos 13, 14 anos. E, de vez em quando, ao lado do campo, olhava fixamente para a peleja senhor com chapéu na cabeça, camisa grossa cinza (ou verde escura) com dois bolsos de botões enormes. 

 

O curioso, observávamos, é que ele não prestava atenção nos jovens talentos, mas sim no árbitro. Não tínhamos o luxo de ter trio completo de árbitros no gramado. Então, certamente, o senhor estava lá para descobrir talentos para o futebol referentes à nobre “arte de arbitrar, se possível com discernimento e sem arbitrariedade”. 

 

Bem garoto ouvi dos colegas que moravam no bairro: ”É o seu Gabino, árbitro famoso, das antigas”. 

 

Aos 14 anos paramos com as peladas, embora meu coração esteja ainda por lá. Tínhamos que seguir a vida. E se possível vencer, embora até hoje desconheça exatamente o significado desta palavra. 

 

Aos 23, quando ingressei em A Gazeta, fui escalado para escrever sobre curso de arbitragem da federação de futebol, na primavera de 1989.

 

 Quando cheguei na sede do evento quem estava lá? Ele mesmo, aquele senhor que nos observava nas pelejas, envolto em muita luz, no gramado da Congregação Filhos da Maria Imaculada – Pavonianos. 

 

Não tive tempo para falar que o conhecia. A vida já tinha me tornado duro. Fiz matéria e não mais o vi. Pelo menos nos meses próximos. 

 

Alguns anos depois, me sugeriram entrevista-lo no Dia do Árbitro de Futebol, 11 de setembro. Sinceramente, a história do Seu Gabino era tão rica que restou-me resgatar algumas curiosidades de sua trajetória, como, por exemplo, as passagens nas quais apitava jogos com faca peixeira na cintura.  

 

E que teve que fugir no camburão ou disfarçado do estádio para se livrar da fúria da torcida do time abatido. Assim como na paixão, o futebol libera das entranhas o lado mais ensandecido do ser humano. 

 

Um dia fui cobrir final da Copa A Gazetinha e quem vejo? Seu Gabino, debaixo da sombra de uma árvore, com roupas bem formais para aquele verão, observando atentamente os seus ex-alunos, alguns com relativa rodagem em competições amadoras e até profissionais. Bastou alguém “pisar na bola” para grito ecoar no ar.

“Só marca se tiver convicção, por favor”. Era Seu Gabino. 

 

Ele considerava os árbitros seus “filhões” e por isso os corrigia com rigor. E estes o respeitavam de forma comovente. Dava gosto ver os sinais da relação fraterna.

 

Seu Gabino apreciava muito a Copa A Gazetinha, do meu companheiro de redação de A Gazeta, o Jornalista Janc. A competição (a maior da categoria infanto-juvenil das Américas) servia também de laboratório, no qual eram realizadas aulas para pretendentes a árbitros da federação. 

 

“Não tem competição melhor para observar os árbitros. Apitar a Copa A Gazetinha engrandece o currículo”, me afirmou, com voz rouca, após aquela decisão. 

 

Sinceramente não lembro da data exata. Sei que foi em 1996. Tinha acabado de chegar na redação de A Gazeta e recebi ligação sobre a morte do Seu Gabino. Apurei sua história. Era morador dos mais antigos de Santo Antônio. Respeitado, disciplinado e apaixonado pelo o que fazia. 

 

Dedicou sua vida toda à arbitragem e criou uma escola, um estilo, tatuou, de certa forma, sua marca. A matéria, de página inteira, foi para a capa. Mérito nenhum meu, somente de sua trajetória. 

 

Se o Estado tem tantos árbitros bons em sua história, Seu Gabino tem parcela determinante para isso. Pena que não seja reverenciado (como muitos) pelas novas gerações como deveria.

 

E eu sempre lembro, com muito carinho, uma frase que me disse. “Árbitro é, sobretudo, um homem corajoso. E que ama o que faz. Se não for assim, não deve nem se aventurar”. 

Concordo Seu Gabino, concordo! 

 

 

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Peter Falcão

Peter Falcão

Jornalista esportivo e comunicador de mão cheia

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