16/11/2021 às 14h11min - Atualizada em 16/11/2021 às 14h11min

Soldado vira herói ao defender fronteira capixaba até a última bala

A Coluna Amaral era estimada em 2 mil homens

- Nilo Tardin
DDC News
Todos fugiram. A única defesa foi a reação de Aldomário Falcão. Foto: Nilo Tardin.


Atrás do fogo cerrado de uma metralhadora pesada, um soldado da polícia militar capixaba conseguiu impedir o avanço de um batalhão estimado em dois mil homens despachados de Minas Gerais para invadir o Espírito Santo na Revolução de 1930 que levou Getúlio Vargas ao poder no Brasil.
 
Armados até os dentes os revolucionários mineiros iam rumo ao mar quando foram barrados na fronteira de Baixo Guandu com Aimorés (MG) pela feroz resistência do soldado Aldomário Falcão que nasceu em Baixo Guandu, território na época pertencente a Colatina (ES). Ele virou herói ao defender sozinho a cidade até a última bala.
 
Em pé de guerra, a Coluna Amaral formada por civis e militares mineiros concentrados em Aimorés no dia 10 de outubro de 1930 recebeu ordem de atacar o Espírito Santo. A intenção era derrubar o governo de Aristeu Aguiar que se opôs ao golpe de estado, conta o advogado Iussif Amin interessado pela história de Baixo Guandu.  

“Todos fugiram. A única defesa foi a reação de Aldomário Falcão. Do alto do morro onde hoje fica a caixa d’água, mão no gatilho disparou a metralhadora assim que os atacantes despontaram na estrada, os mineiros revidaram. A munição acabou. Foi surpreendido dentro da trincheira, dominado e morto a golpes de baioneta”, relatou Iussif na entrevista realizada em 2014..
 
Enterrado em cova rasa, a história do bravo soldado escrita com sangue ficou escondida por quase 50 anos até ser relembrada pelo coronel Orely Lyrio que em 1976 inaugurou com honras militares o busto em bronze no mesmo local onde Aldomário lutou até a morte.
 
Na reserva, o coronel Orely lembra com orgulho da solenidade. “Quem pôs a busto foi à prefeitura por lei aprovada pela Câmara. Comandava o 2º Batalhão de Nova Venécia. Fiz uma inspeção em Baixo Guandu e fiquei sabendo da história. Foi uma luta terrível entre Minas e Espírito Santo. Levei todos os oficiais e praças para a cerimônia. O corneteiro tocou ‘Silêncio. Jovens cobriram o chão de corbelhas de flores. Foi o reconhecimento pelos serviços prestados a Policia Militar e ao Brasil”, destacou.
 
Mas o praça não estava só, revela o coronel Gelson Loiola, historiador da PMES.  Ao revirar boletins da época, Loiola descobriu que Aldomário tinha ao lado o cabo José Augusto de Mendonça que recarregava as armas, um revólver, um fuzil e uma metralhadora 
 
“Mendonça tombou atingido na testa e jamais fora lembrado. É preciso reparar essa omissão histórica”, conclui Loiola.
 
Enterro simbólico após corpo ser encontrado em cova rasa
 
 Aldomário tinha 27 anos quando foi abatido a ferro frio na guerra entre mineiros e capixabas pelo comando do Vale do Rio Doce.
 
O combate em campo aberto perto de um cemitério durou quatro horas sob forte fogo cruzado. Do alto do cume o soldado disparava com pontaria certeira rajadas de balas quase ininterruptas sobre as forças revolucionárias, relata o coronel da reserva Gelson Loiola conforme consulta aos arquivos da PM. 
 
Pelos relatos, a infantaria mineira recuou. Na manhã seguinte Aldomário foi atacado pela retaguarda dentro da trincheira, ainda tentou tomar as armas dos mineiros.  Lutou até ser morto a baioneta por um civil que o pegou pelas costas.
 
 Havia mortos e feridos por toda parte, e segundo coronel Orely Lyrio, o comandante Amaral ao perceber que apenas um homem conteve a armada dele no Estado teria tido: “Vocês não deveriam ter matado esse homem. Ele merecia ficar vivo. É um herói que cumpria seu dever defendendo a legalidade”.
 
A cidade Baixo Guandu foi ocupada após eliminar o foco de resistência capixaba pelas tropas mineiras. Entraram a pé, em veículos militares e nos vagões na Maria Fumaça da Estrada de Ferro Vitória a Minas.  A força pública capixaba em Baixo Guandu contava com 125 legalistas. Temendo serem mortos, 123 deixaram suas trincheiras em debandada e foram presos logo depois.
 
Apenas o soldado Aldomário e cabo Mendonça se recusaram a deixar o campo de batalha.  Em 1980, a PMES instituiu o ‘Prêmio Aldomário Falcão” destinado ao 1º colocado no Curso de Formação de Soldados. Também virou nome de rua que dá acesso ao morro da caixa d’água de onde enfrentou a revolta mineira.  
 
 
Quem era ele
 
Soldado PM Aldomário Falcão
Nasceu em 1903 em Baixo Guandu
Entrou para a Polícia Militar em 1929
Serviu em Colatina, Itaguaçu, Viana, Cariacica e Vitória
Em 1930 foi destacado para fazer a defesa do Estado em Baixo Guandu
Morreu em 10 de outubro de 1930 a golpes de baioneta na guerra entre capixabas e mineiros.
Em 1976 ganhou busto em praça pública e honras militares de herói capixaba
 
Saiba Mais
A Revolução de 1930 foi um movimento armado ocorrido no Brasil que tirou do poder através de um golpe de estado o presidente Washington Luiz. Com apoio dos chefes militares Getúlio Vargas chegou à presidência da República iniciando a Era Vargas.
Em 1930, Baixo Guandu ainda era distrito de Colatina.
O Espírito Santo ficou fiel ao governo eleito. Foi invadido por três colunas revolucionárias. Coluna Magalhães Barata ao Sul, Coluna Amaral e João Calhau que entrariam por Minas Gerais.
 
O chefe do Governo do Espírito Santo Aristeu Borges de Aguiar vendo que a coisa ficou feia fugiu para Portugal no cargueiro italiano Atlanta assim que as tropas da Coluna Amaral ocuparam militarmente a cidade de Vitória provocando grande confusão em 18 de outubro de 1930.
 
Prefeitura vai criar praça em homenagem a Aldomário 
 
 
A revitalização do espaço onde fica a escultura feita em homenagem ao soldado Aldomário Falcão é uma das metas para 2014 da Secretaria de Cultura de Baixo Guandu, revela o chefe do departamento Salatiel Dias Bebiano, 34 anos.
 
“A ideia é criar uma ‘praça cultural’ no entorno do busto de bronze, além de um espaço coberto para abrigar um memorial sobre figuras que fizeram história na cidade, além de proporcionar aos guanduenses e visitantes um local agradável de lazer para conhecer melhor esse personagem que marcou época no Brasil e pouca gente sabe disso”, afirmou Salatiel.
 
Ele argumenta que passo inicial foi levantar a vida do herói. Porém quase nada foi encontrado sobre ele na cidade. “Parece que ele era só no mundo. Ainda não conseguimos achar nenhuma foto ou familiares dele aqui em Baixo Guandu. Mas estamos empenhados em levar adiante a revitalização daquele recanto com jardins, mesas e cadeiras”, disse. 
 
Em junho de 2010, a PMES rendeu novas honras militares ao soldado-herói, recorda o coronel Orely Lyrio convidado a voltar a Baixo Guandu onde em 1976 ‘plantou a semente ’ como ele mesmo diz das justas homenagens ao soldado Aldomário morto heroicamente em combate em 10 de outubro de 1930. “Até onde sei é o único soldado policial militar do Brasil com busto em praça pública”, garante Orely. Também é nome de um dos auditórios do Quartel Geral da PM em Vitória.
 
De acordo com Orely, após os mineiros fincarem a bandeira no Espírito Santo, muitos legalistas ‘viraram a casaca’ e passaram a apoiar a revolta armada. “A história diz que um deles foi Punaro Bley que estava em cima do muro. Quando a Coluna Amaral chegou aderiu a revolução e foi nomeado interventor federal”, detalhou.
 
 

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