27/11/2021 às 06h08min - Atualizada em 27/11/2021 às 06h08min

O maior parceiro da corrupção é o silêncio.

- Everaldo Barreto Moura é Pensador e professor de Filosofia
Filosofia na Veia
O grito dos maus é o sílêncio dos bons, diz o pensador colatinense Everaldo Barreto Moura. Foto: Nilo Tardin


Michel Foucault filósofo francês que viveu entre 1926 e 1984 penetrou sua reflexão filosófica no universo do cárcere e revelou à sociedade o que todos já sabiam, mas faziam - e continuamos fazendo - questão de abstrair.

Os ares do existencialismo, apesar do risco de fortalecimento do egoísmo e da perda da referência transcendental, permitiram que a reflexão filosófica extrapolasse as receitas de comportamento ideal para revelar o sujeito com suas possibilidades de comportamento certo e errado, suas vilezas enraizadas, justificadas, aceitas e até adotadas na sociedade.

A desertificação do terreno das crenças, desde René Descartes libertando dos dogmas, passando por Heidegger e culminando em Nietzsche, permitiu a percepção mais realista do ser humano que, uma vez liberado da condição virtuosa socrática, adotada e fortalecida pelo cristianismo fundamentalmente durante o medievo, pode ser considerado em sua natureza, agora compreendida como livre e em constante construção, sem compromisso com uma essência prévia.

Na obra Vigiar e Punir Foucault faz uma retomada dos processos de correção adotados até então e a forma chamada de evolução no processo de estabelecimento da pena para os infratores dos códigos de conduta social. O ápice da modernidade nesse tema foi o estabelecimento da prisão como pena, o fim dos suplícios de execução pública como um espetáculo de violência que alimentava a sociedade, principalmente do desejo de vingança aos detratores de sua lei.

Aqui quero parar com a reflexão histórica para uma melhor análise e contextualização do nosso comportamento, enquanto sociedade organizada, para expor as contradições da reflexão teórica na leitura social, para tentar entender as disparidades constantes dessas “leituras teóricas”essencialmenteno chão do mundo.

No contexto social de evolução natural em que os progressos do pensamento social vão se consolidando como novos parâmetros de julgamento do comportamento humano, vai ficando para traz a massa dos que não acompanham o que poderíamos chamar de o pensamento culto de uma época, esse “rescaldo humano” de interpretação da vida, se desloca do quadro teórico e toma rumo cada vez mais independente, inclusive se fortalecendo na divergência. Seu corpo também vai crescendo e se adaptando a uma vida vizinha, mas com regulamentos próprios.

Essa distância entre o que hoje podemos chamar de “politicamente correto”, ou seja, aquilo que é fruto de análises e reflexões, que levam em conta o acúmulo da discussão social e o chão do mundo, muitas vezes se tornam acúmulo de tensão que na oportunidade “arrebenta a corda” e traz grande desordem.
Para fechar esse raciocínio, que pretendo retomar na próxima semana, vou exemplificar essa conclusão na sociedade brasileira em curso, relativamente à política sociais e,na próxima semana, focarei o mesmo fenômeno relativamente ao cárcere
.
Nas políticas sociais o Brasil vive uma Fênix dos valores excretados pela evolução da consciência política. Esses valores, ou (des)-valores,  alimentados pelo fenômeno intitulado “Mito”, ganharam força e, aquela que era uma sociedade paralela se tornou hegemônica e derrubou todo o constructo social apelidado de evolução da consciência comum, que em si se mostrou frágil e sem base popular, resultando em uma sociedade rancorosa, sexualmente binária, machista, branca e ainda mais excludente.

O que falta para a correção dessa inversão de visão social, ou corrupção política é “o grito”, por hora amedrontado, por isso tímido, que insurge dos territórios mais atingidos com a função de despertar a sociedade como um todo.

Sair dessa vala e retomar a construção de uma sociedade sadia e aberta às diferenças é a missão para o “dayafter”.

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