08/04/2020 às 12h48min - Atualizada em 08/04/2020 às 12h48min

Aos 12, não sabia que pássaros dormiam, mas enlouquecia decifrando sentimento humano

- Peter Falcão
Foto Peter Falcão
Dizem que Tancredo Neves estava morto na foto clássica com a equipe médica do Hospital da Base do Distrito Federal.

Amiga, casada com político influente, teve que lutar como leoa, contra bando de hienas, para sepultar dignamente marido, sem que velório e enterro virassem palanques políticos, com discurso e tudo.

Dizem que até o padre católico tentou tirar proveito da situação, diante do avanço dos evangélicos na cidade.

No enterro do pai de dois amigos em Ponta da Fruta, senhor de barriga saliente distribuiu panfletos para todos os presentes, explicando demoradamente as qualidades do seu plano funerário.

Definitivamente não estou preparado para os desafios de sobrevivência do mundo moderno.

Aos 12 anos, estudava no Ludovico Pavoni, em Santo Antônio, só que morava em Santa Cecília, cerca de 30 quilômetros dali.

Nos dias de aulas normais me virava pegando dois ônibus. Quando tínhamos Educação Física, contudo, meu pai me levava de carro.

Como entrava muito cedo no trabalho, me deixava 30 minutos antes de começar a aula. Ficava sentado na portaria, esperando a escola abrir.

No inverno, a escuridão era profunda. Parceiro, como morria gente perto dali. Putz, sentia medo visceral naqueles minutos intermináveis, observando os velórios e sentindo o cheiro enjoativo dos crisântemos.

Um dia, garoto da escola, chegou com espingarda de chumbinho e voltou com uns dez pássaros, amarrados pelos pés, abatidos enquanto roncavam nas árvores.

Vivi ou não curta metragem de terror naquela manhã sombria?

Com 12 anos, devo confessar, não sabia nem que pássaros dormiam.

Dez minutos depois que meu pai faleceu, já surgia rapaz, certamente avisado por alguém do hospital, me oferecendo pacote funerário. Foi difícil me livrar do vampiro urbano.

No velório, das 6 às 7h30, fiquei sozinho com o corpo no caixão, na Loja Maçônica Humildade e Fraternidade, na Avenida Marechal Campos.

Homens e mulheres, seguindo para o trabalho, pediam, gentilmente, para ver o corpo. Quando deixavam o local, seus olhos brilhavam. Sendo sincero, observei doses generosas de euforia imperando ali.

Entendi, no fundo do poço, que são indecifráveis os sentimentos humanos, principalmente diante da dor alheia mais profunda. E que assim será até virarmos pó.

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