23/06/2020 às 15h19min - Atualizada em 23/06/2020 às 15h19min

Beijei as mãos de um mito e preenchi minha alma

Maria Lenk foi a primeira nadadora brasileira a estabelecer um recorde mundial

- Peter Falcão
Pauta Livre
Maria Lenk obteve muitas conquistas ao longo da sua carreira de nadadora e de acadêmica >>>> Foto Sátiro Sodré/CBDA



Repórter e jogador de futebol têm algo em comum: quando estão com “ritmo de jogo” ninguém os segura. Fazem seus trabalhos fluírem mais rapidamente e, sobretudo, com maior poder de percepção.

 

No final da década de 1990,  “voava” profissionalmente. Trabalhava muito, e, com larga bagagem na carreira, sabia usar os “atalhos” como bom artilheiro.

 

Fui cobrir para o jornal A Gazeta o Campeonato Brasileiro Juvenil de Natação que acontecia na piscina do Álvares Cabral. Lá avistei senhora de cabelos brancos treinando, discretamente, na piscina de aquecimento, entre a garotada. 

 

Como tinha que colher os resultados para produzir, rapidinho, matéria de 25 linhas, não dei muita bola, mesmo admirando o seu estilo perfeito de nado.

 

À noite, em casa, aquela imagem não me saía da cabeça. No meio da noite, acordei e pressenti que poderia estar perdendo a chance de escrever bela matéria especial.

 

No outro dia, bem cedo, nas provas eliminatórias, já estava lá de plantão. 

 

Fiz algumas perguntas e não deu outra: era ninguém menos do que Maria Lenk, a maior nadadora brasileira de todos os tempos, símbolo de coragem e destemor em décadas remotas, nas quais as mulheres não tinham direito algum.

 

Solicitei entrevista e ela me atendeu. Sentamos na arquibancada e ficamos de conversa, pelo menos, durante uns 45 minutos.

 

Ela tinha na ocasião 83 anos e esbanjava lucidez. Lembrou do início da carreira, bem novinha, treinando em mar aberto e, até mesmo, em rios, como o Tietê, em São Paulo. 

 

De ter usado uniforme emprestado e vendido café, levado nos porões do navio, ao lado de mais 60 atletas, para poder competir na Olimpíada de Los Angeles, em 1932.

 

Da ousadia de introduzir o estilo borboleta em provas femininas, exatamente em uma prova de estilo peito, na Olimpíada de Berlin, em 1936.

 

E falou também da maior decepção da vida esportiva, o cancelamento, por causa da Segunda Guerra Mundial, da Olimpíada de 1940, na qual, certamente, seria a primeira mulher brasileira a ganhar medalha de ouro em prova individual (feito alcançado somente em 2008, por Maurren Maggi, em Pequim, no salto em distância).

 

Foi conversa enriquecedora. Estava frente a frente com um mito, uma das maiores referências femininas mundiais, meio século antes, e, incrivelmente, naquela ocasião, também nas competições masters internacionais.

 

Na conversa, ela observou problema sério na natação brasileira: o excesso de treinos nas categorias de base em busca de resultados imediatos, que estressavam em demasia os nadadores e encerrava precocemente carreiras. E no âmbito internacional, o doping em larga escala na chamada “Guerra Fria” do esporte.

 

Ao final da entrevista, em gesto impulsivo, ao nos despedirmos, beijei suas duas mãos. Ela se assustou e disse. “Nossa, que homem gentil”. Rimos, e fomos embora.

 

Ela me deixou a impressão de ter gostado muito de ter concedido a entrevista. É que neste país de limitada cultura esportiva, onde não se respeita os ídolos e nem os idosos, o mais comum são estes passarem despercebidos por onde andam.

 

Soube de sua morte em 2007, aos 92 anos. Li que se manteve, até pouco antes do falecimento, nadando diariamente os seus 1.500 metros. Como a vi naquele treino, entre os juvenis, e não dormi à noite, intrigado para saber quem era.

 

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