26/08/2020 às 13h39min - Atualizada em 26/08/2020 às 13h39min

Raul, você quebrou minhas pernas. Precisamos tentar outra vez!

Raul entrou no palco, todo de preto depois da hora que homem vira lobisomem

- Perter Falcão
Sexta, 21 completou 31 anos da morte do Raul Seixas. Foto: Divulgação

Sexta, 21 completou 31 anos da morte do Raul Seixas, artista que tem dívida comigo. 

Se não me engano, em 1984, o seu show, no Dom Bosco, dominou o noticiário local.  

Na ocasião, comentava-se, o roqueiro anarquista retomava a antiga verve. E enfrentava, corajosamente, mais uma turnê.  

Fui lá conferir. Confesso meio desconfiado. Nem fã ardoroso era.  

Estava mais para Caetano, Chico, Gil e, especialmente, o Djavan.  

Minha prima, Sandra, havia me presenteado com o disco “Luz” no Natal de 1982. E as canções ainda refletiam fortes.

Vivia como o Surfista Prateado por causa delas, deslizando entre estrelas e satélites. 


Para economizar, resolvi beber batidas de pitanga no Terminal Dom Bosco. Naquelas barraquinhas mesmo que você está pensando.  

As pitangas não caíram bem no meu fígado. Mesmo assim, um pouco mais animado, fui ao show. 

Com bolsa e sandálias de couro, bata amarela e 120 quilos não passei despercebido. 

Dois policiais militares me fizeram as “honrarias da casa”.  

Apertaram tanto os meus ovos, procurando drogas, que vi estrelas. Nestas horas, acho, nem o Surfista Prateado se salva. 

Lá dentro, consumi bocado de cerveja e dei olhadas rotineiras ao relógio, aquele das pulseiras coloridas. Quem me conhece sabe da minha obsessão pela pontualidade.  

Só soube recentemente, ao assessorar, pela minha empresa, Pauta Livre, o show do Roupa Nova, na Arena Álvares, que quando se anuncia início 22 horas, deve-se entender que a primeira canção será ouvida às 24 horas. Isso se todos os políticos tiverem chegado com suas comitivas. 

Sobre o show do Raul, não posso reclamar neste aspecto. Marcado para às 21 horas, começou às 23.  

Não com ele, infelizmente. Um de seus músicos “esquentou” o espetáculo com lado inteiro do disco do Pink Floyd.  

Lá, bem depois da hora que homem vira lobisomem, o show começou. Raul entrou no palco, todo de preto, e, dizem às más línguas, exalando batida de pitanga. 

Cantou quatro músicas, deitou no chão e não levantou mais.  

Cortinas se fecharam. Acabou o show. A galera foi embora em silêncio. Sinal inequívoco de respeito ao artista. 

Resolvi ir embora andando, morava na ocasião no bairro Santa Cecília, cinco quilômetros dali. Minha cabeça pegava fogo. Desde àquela época odeio vacilão.  

No caminho, chuva torrencial alagou a bolsa de couro e colou a bata amarela no barrigão. O relógio inundou e foi para o quinto dos infernos.

No outro dia, antes do sol nascer, já vomitava a batida de pitanga. A mesma que fudeu o Raul. 

 


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