10/12/2020 às 08h37min - Atualizada em 10/12/2020 às 08h37min

Hélio Demoner: visionário que inundou de talentos o basquete capixaba

E eu concordava em silêncio. Batendo palmas pela sua imensa contribuição ao esporte. Que

- Peter Falcão
Pauta Livre Assessoria
Hélio Demoner nasceu em Bom Destino, Muqui, no dia 14 de setembro de 1942. Foto: Álbum de Família
Hélio Demoner, que morreu na semana passada vítima de Covid, foi, certamente, uma das personalidades mais interessantes do basquete capixaba. 

Nasceu em Bom Destino, Muqui, no dia 14 de setembro de 1942. 

Suas múltiplas facetas o tornaram único. Convivi um bocado com ele, desde 1989, quando entrei em A Gazeta, até, pelo menos, cinco anos atrás. 

A primeira vez que o vi, em novembro de 1989, marcamos entrevista para falar dos JAJEM (Jogos Abertos Jerônimo Monteiro). Hélio foi barrado na portaria do jornal porque estava de bermuda. Conversei com a galera que o liberou. Parecia alguém da Jovem Guarda devido às costeletas enormes. 

Como eu fiz com correção o ‘dever de casa” imediatamente conquistei a simpatia do Demoner. E sempre tivemos relação das mais cordiais, embora com posições políticas opostas. Hélio se dizia apolítico, mas era direitista convicto. 

Ele foi sócio atleta do Vasco, após mudar-se para o Rio em 1964. Seu registro, de número 1.926, foi feito no dia 6 de outubro de 1965. Após se formar em Educação Física, fez especialização na West Virgínia, nos Estados Unidos.  

Já o conhecia de matérias de jornais, devo confessar, não ligadas ao esporte. Hélio viveu a efervescência do Rio. Dividia a mesa com muita gente famosa. Artistas fantásticos, mulheres lindas. 

Um dia foi cicerone de atriz estrangeira famosa internacionalmente e mereceu matérias nos principais jornais de Vitória. Com carrão da moda e apartamento futurista, foi classificado em matérias como “último playboy capixaba”.  

Morria de rir destas manchetes. Inúmeras vezes o perguntei sobre os bastidores destes encontros com famosos e ele esquivou-se. 

 JAJEM 

Os Jogos Abertos Jerônimo Monteio (JAJEM) foram criados em 1971. O nome buscou homenagear o advogado cachoeirense que foi governador do Espírito Santo de 1908 e 1912, no período que o basquete foi introduzido no Estado. 

O evento durou até 1994. Movimentou, segundo seus levantamentos, mais de 20 mil crianças. Algumas edições, dentre as 30 realizadas, contaram com mais de 120 times. 

A “formula” era simples. Cada aluno do Hélio, da UFES, tinha que treinar uma equipe de minibasquete, de uma escola, seja em seu bairro, no clube, na praça mais próxima, enfim, onde encontrasse estrutura. No final do ano, estas equipes jogavam entre si até definir o campeão. 

Foi formada nos jogos quantidade significativa de atletas, árbitros, técnicos e dirigentes. Hélio cita, por exemplo, o grande cestinha Luiz Felipe Azevedo, atleta olímpico do Brasil. 

Os JAJEM eram mantidos basicamente por empresas ligadas à família do Hélio, simpatizantes, pais de atletas e pela UFES. Ele também investia do próprio bolso. Os jogos acabaram após sua aposentadoria do Centro de Educação Física da UFES. Ninguém topou o desafio que causava imenso desgaste, nos mais variados sentidos. 

Hélio gostava de falar que os JAJEM inspiraram outras grandes competições infanto-juvenis, como a Copa A Gazetinha, criado pelo jornalista Janc em 1976. 

Os JAJEM foram elaborados após Hélio observar que os clubes tinham trabalho deficitário nas escolinhas (na verdade, as escolinhas estavam praticamente paralisadas). 

 Primeiro Passos

Os primeiros passos no basquete do Hélio foram no Álvares Cabral, sob comando de outro grande mito, Wilson Vassalo. Mas foi no Saldanha que conquistou os maiores títulos na categoria adulta como atleta, o tricampeonato nos anos de 1959, 1960 e 1961.  

No mesmo clube venceu diversos campeonatos capixabas em variadas categorias como técnico. A melhor geração que treinou teve como protagonistas, dentre outros, segundo ele, Fernando Pandolpho, Beto, André Martins, Gustavo, Cadinho e Adilson Gabriel, a quem classificava como “Fenômeno”. 

Segundo Hélio, este time treinava muito. Pelo menos três horas por dia de segunda à sábado. Às vezes aos domingos. 

Hélio também treinou seleções capixabas de diversas categorias. Quando deixou o Saldanha, assumiu Alarico Duarte, outro nome histórico. 

Nos meus últimos contatos com o Hélio, ele mostrava preocupação com os clubes.  

“A figura dos grandes baluartes desapareceu e não conseguimos renovar. Ninguém, salvo  raras exceções, tira um centavo do bolso para contribuir ou consegue influenciar os patrocinadores. Aí o esporte não anda”, comentava. 

“Falcão, eles vão desaparecer. Possuem poucos atrativos. Todo condomínio hoje tem piscina, sauna, salão de jogos, estes diferenciais. Além disso, como o garoto vai voltar para casa de bicicleta, ou andando, com esta violência toda? Nenhum pai deixa. E com razão!”, dizia. 

Curiosamente, Hélio avaliava que a profissionalização do basquete trouxe alguns prejuízos no Estado. 

“Saldanha e, posteriormente, o CETAF pagavam salários. Os atletas dos demais clubes se desmotivaram. Sabiam que iriam perder sempre, pois, eram amadores. Não viviam do basquete”. 

 Doces Lembranças

Vitória dos anos de 1950 e 1960, segundo Hélio, era essencialmente acolhedora. Além dos clubes, tinham quadras à disposição nas praças e parques públicos. Como na Costa Pereira e no Parque Moscoso. O Praia Tênis Clube teve quadra de saibro até praticamente os anos de 1980, lembrava Demoner. 

Um dado marcante da história do basquete capixaba, lembrava Hèlio, foi a convocação de Pavão para a seleção brasileira de 1936 que disputou a Olimpíada de Berlin, na Alemanha. Quando pesquisou, observou o quanto o fato marcou a sociedade naqueles tempos, mas que atualmente é quase desconhecido. 

O Hélio acreditava que somente com os intercâmbios o basquete capixaba se fortaleceria. Então, realizava excursões e trazia grandes nomes do esporte para clínicas e palestras no Estado. Incluindo norte-americanos. 

Jogava as tradicionais peladas dos veteranos no Wilson Freitas, depois na quadra do Darwin. 

Memória 

Um dia me chamou para almoçar no Partido Alto e destacou a necessidade de preservar a memória do esporte.  

Entre gole e outro de cerveja, concordei. Hélio já fazia isso. Tinha fotos, recortes de jornais, livros, enfim, ampla documentação sobre os primórdios do basquete capixaba. 

“Sabia, Falcão que o Togo Renan Soares, o Kanela, técnico bicampeão mundial pela seleção brasileira começou no Estado sua carreira? Treinava o futebol do Vitória e também, nas horas vagas, o basquete do clube?”, me revelou. 

Atento às mudanças tecnológicas passou a atuar como videomaker. Então registrou inúmeros eventos. Cobrimos juntos o Brasileiro e no Sul-Americano de Seleções Juvenis, sediados em Vitória, no início dos anos de 1990. 

Ele não abria mão de curtir a vida. E do seu lado glutão. Um dia a galera do basquete raiz se reuniu em casa na Ilha das Caieiras para comer peixe frito e quando a primeira tigela (enorme) surgiu na mesa, Hélio a “raptou’ e saiu correndo. Voltou logo depois, rindo à beça, com ela pela metade. 

Últimos Encontros

Nossos últimos encontros foram na sauna do Hotel Aruan, que fica no último andar, juntamente com Fernando Zambon e Fábio Ruschi. Ocorreram há cinco anos. Enquanto torrávamos, Hélio reclamava da pouca vivacidade das competições, dos ginásios vazios de praticamente todas as disputas do esporte local. 

Mas previa recuperação. Na sua visão, com vontade política, o esporte brasileiro tinha tudo para crescer. “As escolas possuem até ginásios em suas sedes. Tudo está mais fácil. Devíamos imediatamente adotar o sistema de estudo em tempo integral”, apostava Hélio. 

“Com o aluno na escola em dois turnos vamos diminuir a criminalidade, pois, aprenderá bons valores. Além disso, ele não precisará das drogas para se sentir forte, potente. Terá isso praticando esportes”, dizia. 

E eu concordava em silêncio. Batendo palmas pela sua imensa contribuição ao esporte. Que descanse em paz o grande visionário! 

 

 

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