06/02/2020 às 17h46min - Atualizada em 06/02/2020 às 17h46min

Samba e reggae são a mesma coisa, dizia Bob Marley

Como foi a visita do cantor Bob Marley no Rio, há 40 anos;

 

 

Bob Marley com Chico Buarque no campo do Polytheama, na Barra da Tijuca, em 1980

Bob Marley com Chico Buarque no campo do Polytheama, na Barra da Tijuca, em 1980

Bob Marley já era um astro do pop internacional quando chegou ao Brasil, em 1980, para uma visita de dois dias no Rio. Aos 35 anos, o ícone do reggae veio à cidade para participar da festa de lançamento da gravadora Ariola, no Morro da Urca. Durante aquela que foi sua única passagem no país, onde era mais conhecido pelo megahit "No woman no cry", o jamaicano não fez nenhum show, mas exibiu suas limitadas habilidades futebolísticas em um hoje histórico jogo no campo do time Polytheama, do compositor Chico Buarque, na Barra da Tijuca. Com artistas como Moraes Moreira e Toquinho na linha, a "pelada" teve ainda adesão do então craque da seleção brasileira Paulo Cezar Caju, que a estrela do reggae ficou muito feliz de conhecer. 

Em homenagem ao aniversário de Bob Marley, que estaria fazendo 75 anos nesta quinta-feira, o Blog do Acervo relembra trechos da visita dele ao Rio, que vaicompletar 40 anos no mês que vem. Autor de sucessos como "Exodus" e "I shot the sheriff", que disseminaram o reggae mundialmente, o cantor e compositor foi embora pensando em voltar para fazer um show, o que nunca aconteceu.
Pouco mais de um ano após sua passagem pelo Brasil, em maio de 1981, a lenda do reggae morreu vítima de um câncer que havia sido diagnosticado em 1977.
 

- O samba e o reggae são a mesma coisa, têm o mesmo sentimento de raízes
africanas - disse o músico ao chegar na cidade, no dia 18 de março de 1980, de acordo com a reportagem publicada pelo GLOBO no dia seguinte.

 

O astro jamaicano, com a camisa do Santos, chuta a bola no gramado de Chico Buarque

O astro jamaicano, com a camisa do Santos, chuta a bola no gramado de Chico Buarque

 

 

Chamado pela imprensa nacional de "rei do reggae rock", Marley interrompeu as
gravações do disco "Uprising" e embarcou em um jato particular de Londres, onde morava, para o Brasil. A aeronave pousou primeiramente em Manaus, no Amazonas. Seria uma parada só de reabastecimento, mas houve momentos de tensão com a Polícia Federal. O Brasil já vivia um relaxamento da ditadura, mas a estrutura militar não estava confortável com a chegada do astro, conhecido por suas militância em prol do pan-africanismo e da legalização da maconha. Após horas de negociação, o avião foi liberado, mas os agentes não liberaram o visto de trabalho para o cantor, que, portanto, não poderia se apresentar no país, sob risco de prisão. Após outra parada em Brasília, Marley chegou ao Aeroporto Santos Dumont por volta das 18h30 de uma terça-feira.

 Na comitiva do jamaicano, estavam Jacob Miller, cantor da banda Inner Circle; o guitarrista Junior Marvin, do The Wailers; o produtor Chris Blackwell, fundador da Island Records, e a atriz e modelo francesa Nathalie Delon, ex-mulher do ator Alan Delon. Marley e sua trupe se hospedaram no Copacabana Palace. No dia seguinte à chegada, a lenda do reggae deu umas voltas pela cidade. Diz-se que ele foi à favela da Rocinha, mas imagens ou relatos dessa visita são difíceis de achar. Mesmo que já fosse uma estrela internacional, o cantor não era muito conhecido por aqui, então pôde circular sem assédio de fãs. Ele caminhou pelo calçadão de Copacabana e cantarolou enquanto bebia um suco num restaurante local. De acordo com a edição de 20 de março de 1980 do GLOBO, Marley e seus amigos compraram US$ 1 mil em equipamentos de esporte para levar à Jamaica, além de instrumentos como violão, cuíca, atabaques e maracas.

 

Bob Marley com amigos durante a festa Noites Cariocas, no Morro da Urca

Bob Marley com amigos durante a festa Noites Cariocas, no Morro da Urca

Como o grupo veio ao Brasil sem um cozinheiro para preparar refieções I-tal, comida própria para o consumo de adeptos da religião rastafari, Marley se alimentou apenas de sucos e frutas (ele adorou manga e maracujá). Assim, depois de uma refeição, o músico chegou ao campo do Polytheama, no KM 18 da Avenida Sernambetiba, na Barra, por volta das 16h daquela quarta-feira. O atraso de quase três horas não desanimou os participantes que esperavam para estar em campo com o astro, que fazia questão de se dizer um apaixonado pelo futebol brasileiro.

 - Rívelino, Jairzinho, Pelé... O Brasil é o meu time. A Jamaica gosta de futebol por causa do Brasil — comentou o artista ainda no vestiário, onde trocou a camiseta com a inscrição "Copacabana, Rio, Brasil" pela camisa da gravadora que estava sendo lançada no país.

 

Marley em ação, com Chico (à esquerda) e Toquinho (ao fundo)

Marley em ação, com Chico (à esquerda) e Toquinho (ao fundo)

 

 

 

O  autor de hits como

O autor de hits como

 

Ainda segundo O GLOBO da época, a partida durou 20 minutos. Em um time, estavam Marley, Toquinho, Paulo Cezar Caju, Junior Marvin, Jacob Miler e Chico Buarque. No outro, jogaram Alceu Valença, o músico Chicão e alguns funcionários da Ariola. A partida acabou com vitória de 3 a 0 para o elenco do jamaicano, com gols dele próprio, de Chico e de Caju. Marley ganhou uma camisa 10 do Santos e abriu um grande sorriso, reconhecendo o uniforme e o número do rei Pelé. Depois, o artista disse aos jornalistas que, de música brasileira, só conhecia mesmo Gilberto Gil, que havia regravado "No woman no cry" como "Não chores mais". O mito jamaicano contou ainda que estava feliz por ter sido apresentado a Paulo Cezar Caju, que já tinha visto nos jogos da seleção pela TV europeia.

Naquela quarta-feira, o lançamento da gravadora Ariola na festa Noites Cariocas levou algo em torno de 800 convidados para o Morro da Urca, com direito a apresentações de músicos como Moraes Moreira e Baby do Brasil (na época ainda chamada de Baby Consuelo). Havia muita expectativa para uma performance surpresa de Marley, mas a polícia estava no local, e ele e sua equipe temiam que o astro fosse preso caso subisse ao palco para cantar, já que o artista não tinha visto de trabalho. O jamaicano conversou com algumas pessoas, mas foi embora sem a tão esperada "canja". O produtor musical Marco Mazzola, representante da Ariola no Brasil e responsável pela vinda do cantor, chegou a propor o retorno da lenda do reggae ao país para um show, mas, infelizmente, não foi possível.

 

 

O astro do reggae dá entrevista ao chegar no Aeroporto Santos Dumont, no Rio

O astro do reggae dá entrevista ao chegar no Aeroporto Santos Dumont, no Rio

 

 

Nos meses seguintes, a saúde do músico se deteriorou. O cantor sofria de um câncer de pele agressivo chamado de melanoma lentiginoso acral, que se desenvolveu na unha do dedão do pé. Ele tinha sido diagnosticado em 1977, e alguns médicos sugeriram amputar seu dedão, mas o músico se recusou porque, segundo a religião rastafari, o corpo humano é algo sagrado e não pode ser modificado (por isso os fiéis deixam crescer a barba e os cabelos, adotando dreadlocks). Ainda em 1980, o mundo recebeu, comovido, a notícia sobre a doença, que se espalhou para o cérebro e outros órgãos do cantor. Ele estava na Alemanha quando soube que sua morte seria inevitável. Marley tentou voltar para sua casa, na Jamaica, para passar seus últimos dias entre familiares, mas não conseguiu completar a viagem. O avião pousou em Miami, onde Robert Nesta Marley morreu após ser hospitalizado, no dia 11 de maio de 1981. Tinha 36 anos de idade. 

Da viagem ao Brasil, ficaram mais do que memórias. No avião de volta, Marley estava dedilhando o violão e acabou compondo o megahit "Could you be loved", que foi lançado no álbum "Uprising", último disco lançado por ele ainda em vida. Estava lá, entre os instrumentos usados na gravação original, uma cuíca comprada na Rio. Um pouco de DNA brasileiro na obra do mestre jamaicano.

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