14/08/2020 às 19h41min - Atualizada em 14/08/2020 às 19h41min

​Oficializando o racismo

Às vezes a gota que provoca o transbordamento é fundamental para a ampliação do reservatório

- Everaldo Barreto Moura
Em nossa sociedade, principalmente por que, como diz o poeta popular “paz sem voz, não é paz é medo”. Foto: Reprodução Web

Finalmente um pouco da verdade social que vivemos foi oficializada pela juíza Inês Marchalek Zarpelon, da 1ª Vara Criminal de Curitiba, no escândalo da sentença racista que emitiu. Contudo, esse tipo de atitude só se torna um escândalo pela nossa hipocrisia social, pois gostamos de viver nas cavernas dos pré-conceitos, alimentados pelos preconceitos enraizados em nossas relações.

Por mais incrível que pareça, não consigo enxergar o problema na atitude da juíza, pelo contrário, ouso valorizar essa atitude, apesar de seu caráter hediondo, e já adianto que não tiro a razão para os ímpetos de revolta do meu nobre leitor, mas peço um instante de compreensão ao presente exercício reflexivo.
Infelizmente essas questões enraizadas em nossa maneira de viver, só são vistas diante do escândalo.

A explosão dessas mazelas, quando vêm à público com uma exploração midiática, exigida pela própria população comovida, expõe aquilo que a “sociedade”, enquanto instituição, teima em negar, esconder e até condenar com veemência, no discurso, enquanto convive rotineira e pacificamente, inclusive alimentando-o, seja por ação ou omissão.

A minha reflexão passa pela busca da causa, a pergunta filosófica, o porquê do racismo.

O homem moderno, consciente de seu cógito, ao se libertar das amarras do dogmatismo medieval e se descobrir livre para conhecer, elaborar e dirigir sua própria vida, se sentiu grande, “dominador” da natureza. Em seu “esclarecimento”, passou a agir como se tudo que há em seu entorno é para lhe servir, incluindo aí seu semelhante. Tudo passou a significar recurso, humanos, naturais, tudo à sua volta, ao invés de compor sua vida, serve a ela. À partir daí tivemos duas grandes guerras mundiais, muitas invasões territoriais, travestidas de “descobrimento”, o que lhe dava o direito de desconsiderar e subjugar toda a vida ali existente, como se aquela parte do planeta só tivesse passado a existir após a sua chegada.

Escravizando, expropriando, condicionando com a imposição de sua cultura, chegando finalmente nessa condição que vivemos, onde retornando aos pré-socráticos, oficializamos o não ser.

Antes de ser escancarada numa prisão violenta como a prisão de George Floyd em Minneapolis (EUA), ou oficializada numa sentença judicial aqui no Brasil, em Curitiba, essa atitude de exclusão e etiquetagem do excluído, se estabeleceu em nossas vidas de forma tão profunda que, sua negação é que exige uma explicação.

Basta observar as vezes que presenciamos um negro em “territórios de dominação branca”, sejam esses territórios físicos, como lojas de grifes, restaurantes sofisticados, ou territórios institucionais, como em cargos públicos elevados, direção de grandes empresas, etc. que passamos a utilizar esses indivíduos pretos vitoriosos como exemplo e paradigma, passando então a condenar a maioria desse seu povo, que não o ocupa esses espaços, por sua “inabilidade”, “incompetência” e até “preguiça” para atingir.

A exemplo disso, assistimos todos os dias as consequências dessa “visão social” na ocupação preta dos presídios, dos subempregos, da ocupação territorial das periferias das cidades, e também na disponibilização de serviços públicos para esse povo, em seus territórios próprios, que são vistos como “não lugares”, na administração de nossas cidades.

Assim sendo, é melhor que aconteçam esses escândalos do que o silêncio, podre e aquiescente, do racismo e da discriminação, que operam, cultural e institucionalmente, em nossa sociedade, principalmente por que, como diz o poeta popular “paz sem voz, não é paz é medo”. 

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