20/11/2018 às 17h29min - Atualizada em 20/11/2018 às 17h29min

​Zé Dias, o audaz marinheiro do Rio Doce

Navio singrou o Rio Doce de 1927 a 1954

Nilo Tardin
Nilo Tardin
Durante 11 arriscados anos seu Zé Dias, 92 anos dedicou o braço forte da juventude a viajar como tripulante no vapor Juparanã, o maior navio de passageiros e cargas dos áureos tempos da navegação do Rio Doce entre Colatina e Linhares no norte capixaba.

O som estridente do apito do vaporzinho movido pelo motor de 80 cavalos podia ser ouvido  a 10 km de distância enquanto cruzava em ziguezague as barrancas do majestoso rio de lendas, ouro e pedrarias. A nave tocada à roda d’água media 26 metros de uma ponta a outra e seis de largura. Transportava 150 passageiros e 25 toneladas de carga conforme a Revista de Geografia do Rio de Janeiro de 1932.

Seu José Dias hoje vive da aposentadoria de pescador mora na casa da sobrinha Adorys do Carmo Lopes, 73 anos no Bairro Colúmbia em Colatina, ora em Vitória com parentes.
 
De pé no meio da sala simples envolta pelo aroma do café de coador de pano feito por Adorys, o último navegador do Juparanã remexe uma pasta de papéis amarelados. Os gestos moderados viram um solavanco com as mãos cheias de documentos e fotos. 
 
-Aqui está minha carteira de marinheiro. Prova da minha vida embarcado no vaporinho. Moço! Não era moleza não. Trabalho pesado dividido pela tripulação de 13 marinheiros sob comando do capitão Pedro Epichim. Levava dois dias e meio de Colatina até a barra em Regência. Fazia cinco viagens por mês. Na seca, a gente tinha que se virar e desencalhar o barco na mão.
 
O canal do rio no início do século 20 media ao menos 25 metros de profundidade. O velho marinheiro recorda claramente do rio caudaloso agora devastado pelo assoreamento, poluição e apunhalado pelo lama de rejeitos de minério.
 
A desengonçada embarcação parada no caís entupida de lenha na proa se enchia de graça ao zarpar lépida e atrevida para criar povoados enriquecer nascentes vilas em meio à floresta intocada.
 
Veio da Alemanha.  Atravessou o Atlântico desmontado. Custou 2.715 libras esterlinas aos cofres públicos no governo de Florentino Avidos (1924-1928).   
 
Deu uma imensa contribuição de como chegamos até aqui às vésperas da fervilhante de Colatina de 123 mil habitantes ao completar 100 Anos em 2021.
 
Se por um lado os tripulantes eram regidos a mão de ferro pelo velho comandante, conforme relata Zé Dias por outro lado o cordial ‘Almirante’ tratava os passageiros com primazia. Sobretudo os acomodados nos oito camarotes do navio de casco de aço. 
 
Apesar de apertado, os quartos de dormir ofereciam conforto. Segundo relatos, as maçanetas de porcelana davam um ar vitoriano  ao ambiente. O Juparanã foi lançado na água em 22 de setembro de 1927 na presença de Florentino Avidos  e altos figurões locais
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