01/08/2020 às 13h45min - Atualizada em 01/08/2020 às 13h45min

A 2ª Guerra influenciou na mudança do curso do rio Santa Maria e na urbanização do centro de Colatina

Bulldozeres derrubaram o Morro das Cabritas criando no lugar o Bairro Esplanada

- Paulo César Dutra (Cesinha)
No lugar do antigo leito, foi expandido o bairro Vila Nova, surgiu o bairro Esplanada, novas ruas e uma nova cidade que cresceu naquela direção, contou seu Joaquim; ~foto>>Reprodução Arquivo CesinhaDutra
Foram três anos de serviços, mas a obra foi concluída, algumas vidas marcaram o esforço dos operários, entrando assim para a história de Colatina, que não teve custos em um projeto que era impossível de ser executado pela administraçao municipal.

No final dos anos 1930, a cidade estava crescendo e precisava de uma revitalização urbana urgente.

Mas tinha um rio e um morro no centro que impediam. E também, não havia verba municipal para executar o projeto. Era caro demais! Quem poderia imaginar que a 2ª Guerra Mundial seria a solução.

Em 7 de dezembro de 1941, o inesperado ataque da aviação japonesa contra Pearl Harbor, uma base naval dos Estados Unidos da América do Norte-EUA e o quartel-general da frota norte-americana do Pacífico, na ilha de O'ahu, no Havaí (estado que pertence aos EUA) , perto de Honolulu, foi o primeiro sinal.

Até este dia, os EUA permaneciam neutros no conflito mundial. Mas o ataque japones precipitou a entrada dos EUA na 2ª Guerra. No dia 8 de dezembro de 1941, o Congresso norte-americano vota favorável e o presidente dos EUA, Franklin Roosevelt, declara guerra ao Japão, entrando de maneira definitiva na 2ª Guerra Mundial.

Os EUA foram seguidos pela Grã-Bretanha. Três dias mais tarde, a Alemanha, declara, por sua vez, guerra aos Estados Unidos, porque o Japão era um dos aliados dos alemães.
 
O rio e o morro
 
O leitor deve estar curioso para saber o que tem a ver a 2ª Guerra Mundial com a mudança do curso do rio Santa Maria do Doce e a urbanizaçao do centro!

Os Estados Unidos era o maior comprador de minério de ferro do Brasil e a Companhia Vale do Rio Doce  - CVRD é quem fazia a extração e o transporte do produto por via férrea, das minas de Itabira, em Minas Gerais ao porto de Vitória (em um percurso de 408 quilometros), e de lá, em navios para os EUA, ou para outros estados ou países também compradores.

Os EUA havia se convertido em uma economia de guerra, e tinha a necessidade de que o minério chegasse lá na América do América do Norte o mais rápido possível. Os americanos estavam guerra e  precisavam de reconstruirem suas frotas de navios, fabricar aviões, canhões, tanques de guerra, entre outros equipamentos bélicos e os meios de transportes para a 2ª Guerra.
  
O Governo Norte Americano solicitou da Companhia Vale do Rio Doce  - CVRD, melhorias nas ferrovias e rapidez na entrega do minério de ferro que era o produto excencial para os EUA. A ferrovia entre Itabira e o porto de Vitória era uma estrada muito sinuosa, com poucas retas, que impedia aos cargueiros (o trasporte de minério) da Vale de desevolverem uma velocidade maior.

A Vale atendeu ao pedido dos EUA e contratou várias empresas para melhorar a ferrovia nos seus 429 quilometros entre as minas de  Itabira e o porto de Vitória . 
 
 Para as obras da ferrovia no Espírito Santo, da cidade de Baixo Guandu até Vitória, a Vale contratou várias empresas, por etapas. E a empresa José Lopes Torres foi a vencedora da concorrencia da obra da mudança do curso do rio Santa Maria, do centro de Colatina, para o curso atual entre os bairros Esplanada e Avenida Rio Doce.  O antigo leito do rio Santa Maria obrigava a linha de ferro quase contornar a cidade, fazendo uma longa volta margeando o rio.

E em 1978, quando eu era repórter do jornal A Gazeta, ocupava o cargo de chefe do setor de artes, que cuidava dos suplementos especiais e anúncios do jornal. E naquele ano, conversando  com o meu pai, Joaquim da Silva Dutra , surgiu no papo essa história, da mudança do curso do rio Santa Maria e da transformação do Morro das Cabritas, em uma esplanada. Eu na conversa com o meu pai Joaquim Dutra viajei na história.

Quando o então responsável pela sucursal do jornal A Gazeta, em Colatina, Alcebíades Zaché, me comunicou que teria um suplemeto especial para o aniversário da cidade. Foi aí que “vendi meu peixe” para ele, que me autorizou a fazer o texto. O especial veiculou dia 22 de agosto de 1978, em A Gazeta, com essa  história:

 Segundo contou meu pai, Joaquim Dutra, que foi um dos contratados  para a tal obra, “em 1942 a C.V.R.D.contratou a empresa José Lopes Torres, para fazer um novo leito para o rio Santa Maria, para que a estrada de ferro pudesse diminuir o seu curso naquele setor.

E a empresa chegou a Colatina e começou a recrutar operários para aquele monstruoso serviço, por não contar na época com equipamentos mecânicos. E nós, a mão, utilizando carroças, começamos  a fazer a dita obra. Começamos a escavar o novo leito do rio Santa Maria.

E foram oito meses de árduo trabalho, mas nada adiantava, pois o serviço era demorado, pois as condições geográficas do terreno, todo morrado, não ajudavam. Mas  já havíamos iniciado o serviço”, disse ele.

  “A CVRD  notando que a empresa José Lopes Torres não progredia no serviço, resolveu contratar uma firma  americana a Cia Raymond – Morrison – Knudsem do Brasil S/A para continuar o serviço. A empresa americana veio com grandes equipamentos, e nós conseguimos fazer o novo leito do rio Santa Maria, com 20 metros de largura, 8 metros de profundidade e 1.500 metros de extensão aproximadamente. Mas não estava tudo pronto, precisávamos aterrar o antigo leito, o pior foi ai, quando as águas começavam a romper as barreiras. Numa noite quando dormíamos, foi dado o alarme, a represa havia rompido e as águas corriam de volta para o antigo leito, a cidade toda se assustou, foi o maior alvoroço, precisamos de cordas, para se amarrar para entrar na água, com a finalidade de fechar as brechas abertas pela força do rio. Usávamos pás, enxadas e sacos de areia e somente no outro dia à tarde, foi que conseguimos  conter a fúria das águas do Santa Maria. Em 1947 concluímos a obra com novo curso do rio, todo o antigo leito aterrado, o Morro das Cabritas desapareceu , dando lugar a uma esplanada, hoje nome do bairro, considerado nobre em Colatina”, disse Joaquim Dutra.
         
“Durante essa obra, lembro-me que morreram seis operários. E em acidentes que considerava normais, uma média de tres  operários eram feridos por dia. Nós tínhamos a assistência médica dos doutores Justiniano de Melo e Silva e Raul Giubertti, que eram contratados pela empresa americana. Na época, o prefeito de Colatina era o doutor Silvio Avidos, inclusive muito meu amigo, pois chegara a me chamar para trabalhar com ele na Prefeitura Muicipal de Colatina. Mas Silvio Avidos não chegou a viver o suficiente para ver o resultado da obra monstruosa, adoeceu em Colatina e foi morrer na Capital. Foi uma das pessoas que mais apoiou na mudança do curso do rio Santa Maria”, disse Joaquim.

“Naquela época o rio Santa Maria cortava a cidade, entrando pelo bairro Vila Nova, passando pela Esplanada (antes era um morro), fazia uma curva em frente a Catedral (hoje uma rua asfaltada, Getúlio Vargas e se dirigia para o rio Doce e desembocava na rua da Lama. Hoje o Santa Maria  separa o bairro Vila Nova, da Vila Rio Doce , desembocando normalmente  no rio Doce. No lugar do antigo leito, foi expandido o bairro Vila Nova, surgiu o bairro Esplanada, novas ruas e uma nova cidade que cresceu naquela direção”.

  “Eu tive o prazer de acompanhar esta obra desde o início até o seu final, e vi também surgir um novo bairro, de onde fui um dos primeiros habitantes, onde hoje nós encontramos ali, fábricas, clubes, postos de gasolina, hospitais, grandes residências, prédios, igrejas, ruas asfaltadas, antiga estação ferroviária, grande comércio, enfim, de tudo”, disse ele.

Posso dizer que vi Colatina nascer, desenvolver e crescer muito, como está hoje”, conta ele.

“O dia mais alegre da minha vida, foi quando fomos homenageados pela comunidade, pela realização do serviço, que era a mudança do leito do rio Santa Maria, que auxiliou bastante no desenvolvimento da cidade, que eu considero minha terra natal, pois parte da minha vida passei ali. No dia em que abrimos o novo leito, que a água correu para o rio Doce, foi a maior festa, pois era uma coisa fantástica, pois eles nunca haviam tomado conhecimento de tal coisa. Para eles era uma coisa inédita. Essa é uma das poucas histórias, que o povo jovem de Colatina não sabe”, disse Joaquim.

Bom, o leitor deve ter entendido, que as obras feitas pela Vale para melhorar o trajeto da ferrovia em Colatina para atender aos EUA, foram providenciais para a cidade, que sem gastar um tostão sequer, conseguiu urbanizar o centro e tirar o rio do meio da cidade. 

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