22/02/2022 às 15h46min - Atualizada em 22/02/2022 às 15h46min

​Morre o colatinense Mário Dalla Bernardina Segundo

Seu Mário era um importante empresário da construção civil

- ​Maria Tereza Paulino
Imprensa Colatina
Seu Mário era casado com Eliza Seidel, com quem tem oito filhos, netos e bisnetos. Foto: Álbum de Família.


Faleceu ontem o colatinense Mário Dalla Bernardina Segundo, que construiu uma vida de 91 anos como construtor civil e empresário do ramo ceramista. Viveu intensamente mostrando uma imensa alegria independentemente da idade, do tempo. Chegou a se arriscar a candidato a vereador, porque segundo ele  “queria trabalhar para minha cidade. Fazer alguma coisa para a cidade que eu amo”. 

Era casado com Eliza Seidel, com quem tem oito filhos, netos e bisnetos. Era filho dos agricultores Adelina Denardi e Roque Dalla Bernardina, que chegaram ao bairro  Barbados em 1906 para trabalharem como meeiros nas terras de Pedro Filho, e ali tiveram os 12 filhos. Era o ano da chegada da Estrada de Ferro Diamantina em Colatina, que anos mais tarde passou a ser a Estrada de Ferro Vitória a Minas, da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD). Só em Colatina a Diamantina construiu três estações; uma delas em Barbados. Por isso ficaram marcadas na memória de Mário desde a sua infância, as lembranças dos trens passando na linha férrea. 

 Em conversas com amigos em 2014, Mário  lembrou “quando a estrada de ferro vinha por Colatina Velha, passava pelo centro da cidade (Avenida Getúlio Vargas, subia para a Rua Bartovino Costa), descia para a ponte de ferro do Bairro Vila Nova, passava em frente do Colégio Marista, saía na Avenida Rio Doce e seguia rumo a Minas Gerais. Era época da Maria Fumaça. As estações de Barbados, Baunilha e Centro de Colatina foram construídas no mesmo período”.

Depois de trabalhar na roça com os pais, e até ajudado a construírem a casa da família em Barbados, em 1944, descobriu sua vocação. Ele se orgulhava de ter sido um dos mais requisitados construtores civis de Colatina. “De 1948 até no final dos anos 60 trabalhei como construtor autônomo e fui quem mais construiu obras no município. Eu tinha a empresa Bernardina & Cia, e só dentro de Colatina eu fiz 29 obras, entre moradias, igreja, hotel e escolas. Desde 1956 eu tenho a carteira do Crea (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia)”.

 Entre as obras em Colatina, as construções das casas de Antonio Pagani (Avenida Getúlio Vargas), igreja de Santa Fé (estrada para Marilândia), torre da Catedral do Sagrado Coração de Jesus, prédio da Padaria Bolão, Coletoria Estadual, prédios do Hotel Juparanã. “Também construí as casas de Humberto Gobbi, Belmiro Gobbi, Antonio Zago, Antonio Menegatti, Dr.Adoris, e ainda várias em Colatina Velha, São Vicente e São Silvano. A Escola Virgínia Calmon (Vila Lenira) foi outra obra. Além da ampliação da sede de antiga empresa Telest, e depois encerrei a carreira”. Mário contou que fez um dos primeiros prédios do então INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), hoje INSS (Instituto Nacional de Serviço Social); e um prédio da Secretaria de Educação do Estado em Colatina, entre outros serviços para órgãos públicos. De 1962 a 1966, trabalhou como empreiteiro da Vale.

“Foram 39 obras, entre reformas e construções de plataformas de estações de trem, casas geminadas e escolas. Em Colatina, foram as construções de partes das plataformas da primeira estação, em 1964 (Bairro Esplanada) e da segunda, em 1974 (a atual, na Rodovia Colatina/Itapina). No Espírito Santo, ainda para a Vale, construiu as plataformas de Piraqueassú (Ibiraçu), de Baixo Guandu e da localidade de Caboclo Bernardo (João Neiva, que não existe mais) e uma escola em João Neiva. Já em Minas Gerais, foram as construções das plataformas das estações de Conselheiro Pena, Intendente Câmara e Coronel Fabriciano e uma escola em Aimorés.

  Na empresa chegou a ter 130 funcionários. Revelou que tudo era mais difícil do que é hoje. “Para construir hoje tem muitas facilidades, diversos equipamentos diferentes para trabalhar. Naquela época era tudo feito na mão, não tinha maquita. Para colocar um ladrilho usávamos um taco para cortar, com um pedaço de pau e marreta, e hoje a maquita faz tudo”, explicou. Em 1954, enquanto ainda era construtor, Mário abriu uma fábrica de ladrilhos perto de onde mora até hoje, no Bairro Sagrado Coração de Jesus.

“Em 1966 acertei as contas com os empregados, e deixei a empresa com os funcionários mais antigos”. Depois que fechou a fábrica de ladrilho, comprou uma empresa de cerâmica do tio Cláudio Dalla Bernardina, em Barbados, fundada em 1906 pelo avô. “Eu saí da construção civil mais tranquilo, o que foi a minha salvação. Recebi a herança do meu pai, comprei um caminhão, fiz um barracão da empresa e consegui pagar as dívidas. Fui proprietário da empresa até 1997 e depois fechei as portas, pois estava dando prejuízo. Só no Espírito Santo a crise da Era Collor fechou 64 fábricas. Eu não tinha dinheiro, e tinha concorrente que estava melhor”, destacou.

Cartas ao governador 

Na década de 90, Mário chegou a ser candidato a vereador pelo PDT (Partido Democrático Trabalhista), mas não ganhou. Na época já começava a mostrar sua preocupação com o tráfego pesado da ponte Florentino Avidos, que na sua avaliação apresentava problemas com balanço. Chegou a enviar duas cartas ao então governador Albuíno Azeredo, sugerindo modificações e obteve resposta de uma. As três ele ainda  guardava com carinho até hoje.
 
Na carta de 22 de junho de 1991, ele propõe a correção no piso da ponte, “com uma mão de obra de boa qualidade, para evitar o forte balanço. Que seria necessário colocar entre as cabeças do vão um  ‘T de 4’, para evitar novamente o rebaixo do asfalto, o que diminuiria o balanço em até 80%. E esta ponte é o coração do Norte do Estado, pois ela suporta um peso diário de blocos de granito. E se este serviço for feito, pode estar certo que os motoristas ficarão muito agradecidos. Aqui fica o meu apelo, que não é só para mim, mas para todos os colatinenses”.

 Explana ao governador que mandou a carta para que ele fizesse com que o veículo passasse sem impacto, fazendo um ‘T’ de chapa galvanizada, para dar passagem de um vão para o outro e não dar impacto como o que estava ocorrendo. “Por muitas décadas as carretas pesadas fizeram muito mal para a ponte. Se tivessem feito isso antes, anos atrás, não seria preciso proibir a passagem como aconteceu hoje (a partir de 2001). Passavam carretas de 80 a 90 toneladas. Claro que o ‘T’ seria calculado por um engenheiro para suportar o peso de um veículo pesado, com todas as normas técnicas da engenharia”. 

Em carta enviada um mês depois, Albuíno respondeu, por meio da secretário-chefe da Casa Civil, José Eugênio Vieira, que encaminhou sua carta à Secretaria de Estado dos Transportes e Obras Públicas. Em 14 de outubro de 1992, Mário enviou a segunda carta cobrando as correções do asfalto. Nela, ele afirma que: “Ao passar percebi que não deve demorar, pois o balanço é um pouco forte quando passa nos buracos, e cada dia que passa aumenta o tremor, pois como você sabe tudo que torce ou vibra demais pode acontecer alguma coisa. Estou lembrando porque inclusive os trabalhos do alargamento já estão prontos. Um lembrete do amigo oculto, colega do PDT de Colatina”. 

Não satisfeito, Mário resolveu passar para as telas de pintura as suas sugestões. Em duas das três telas que fez na década de 90, e que ainda guarda em sua casa, ele mostra o que, na sua opinião, devia ser feito na Ponte. Na primeira, ele volta ao passado, mostrando a ponte sob uma perspectiva diagonal, de quem vai subir na ponte pelo lado sul, com uma Maria Fumaça sobre ela.

Para quem não sabe, a ponte, foi construída em 1926 para servir de passagem de uma estrada de ferro que não deu certo. Na segunda, ele mostra caminhões de carga pesada e carretas, que poderiam causar acidentes pelo excesso de peso, e propõe a construção de quatro pistas. “Há algumas estacas com índices de fratura que requerem reforço, entretanto, nas outras estacas que se considera perfeitas daqui a 30 anos ou mais, elas estarão danificadas”, frisou. 
E concluiu que “ao invés de fazer uma reforma ou reforço, deveria fazer uma infraestrutura para suportar toda a carga de casa pilar, assim não haveriam futuras preocupações, prevendo o futuro com segurança. E também no tráfego com quatro pistas, vai depender do engenheiro fazer uma avaliação e os cálculos devidos. Basta dizer que esta ponte é um patrimônio histórico”. 

Preservando hábitos 

Mário encerrou suas atividades profissionais, mas não ficava parado. A rotina nunca fez parte de sua vida, pois sempre estava fazendo alguma coisa. Em 2013, ele fez uma laje em sua casa, que segundo contou, só pagou “para a empresa aplicar o concreto, porque o resto ficou por minha conta. Ainda tenho muita força”, garantiu. 

Tinha orgulho em dizer que tinha uma saúde de ferro. “Não tenho pressão arterial. Todo ano participo de um torneio de futebol, no Industrial Futebol Clube, de Barbados, com uns três times. Todo ano eles me convidam. Desde os 14 anos eu jogo futebol de várzea em qualquer posição que precisava. Do futebol eu lembro do Hugo, que para mim era o melhor goleiro que vi jogar no Brasil. Era de uma empreiteira da Vale e morava em Itapina. Eu fui reserva dele”, contou. 

Todos os dias, tinha o hábito de levantar cedo e “resolver algumas coisas pendentes”, como ele mesmo dizia. Tomava banho e ia para Barbados onde ficava até as 17 horas trabalhando na área da empresa de Cerâmica. Dizia que ficava “zelando pelo barracão, fazendo uma coisa e outra, roçando a vegetação da área de 68 mil m2. Eu cuido até hoje, indo todos os dias, de domingo a domingo. Tem 46 anos que eu não faço mais consulta nenhuma. Estou fazendo algumas pesquisas, tenho projetos de vida, muitos sonhos ainda”. 

E assim era Mário. 




                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          
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