28/12/2020 às 06h02min - Atualizada em 28/12/2020 às 06h02min

Rachel a criança que se recusou cumprimentar o Presidente Figueiredo

A imagem se tornou histórica como uma das mais representativas da época

- Por Paulo César Dutra (Cesinha)
Presente & Passado
A foto, de 5 de setembro de 1979, mostrava a pureza de uma criança que desde pequena já sabia que a ditadura era cruel e dura com as pessoas. Foto: Guinaldo Nicolaevsky - O Globo. Reprodução - Paulo César Dutra
A profissional de Comércio Exterior, Rachel Clemens Coelho, era uma criança de apenas cinco anos de idade, em 5 de setembro de 1979,  quando ficou conhecida nacionalmente, por ter se negado a dar a mão ao Presidente da República, João Batista Figueiredo  em um evento em Belo Horizonte, Minas Gerais, durante a ditadura militar.   

Na época a fotografia do momento se transformou em uma das imagens mais famosas do período.  

O autor da imagem foi o fotógrafo Guinaldo Nicolaevsky, que era na ocasião profissional do jornal O Globo. Em entrevista ao Jornal Estado de Minas, em junho de 2011, Rachel lembrou o episódio e afirmou que o gesto não teve conotação política, mas atitude de criança. Ela contou que, com apenas cinco anos, não tinha noção do que os militares representavam.

“Sou de uma época que criança era só criança e se preocupava mais em brincar e se divertir”, contou em entrevista.
 
Tudo aconteceu durante um almoço no Palácio da Liberdade, quando João Batista Figueiredo esteve na capital mineira para o lançamento do carro a álcool.

O pai de Rachel, que trabalhava no Departamento de Estradas e Rodagens (DER), foi um dos convidados para almoçar com o presidente e levou a família para o evento.
 
O fato
 
Uma das fotos que mais marcaram os sentimentos de desagrado da população sobre o regime militar no Brasil aconteceu por acaso. Para muitos, a foto, de 5 de setembro de 1979, mostrava a pureza de uma criança que desde pequena já sabia que a ditadura era cruel e dura com as pessoas, mas foi a própria personagem principal da foto – a garotinha marrenta de 5 anos que se recusava a cumprimentar o presidente da República João Batista Figueiredo – que explicou o motivo de estar emburrada naquele dia e ter recusado o aperto de mão do último general a governar o país.
 
O general-presidente tomou cafezinho no centro de Belo Horizonte, fez um discurso, seguiu para o Palácio da Liberdade para almoçar com o então governador Francelino Pereira (Arena) e autoridades do governo mineiro, tudo caminhando de acordo com o planejado.

Mas, para surpresa de Figueiredo, ao dirigir seu cumprimento para a menina, ela o rejeitou e permaneceu de braços cruzados.

A imagem do fotógrafo Guinaldo Nicolaevsky (1939-2008), militante de oposição ao regime militar, foi publicada por diversos jornais e revistas no Brasil e no exterior.
 
 “Na época eu não entendia o que os militares representavam. Sou de uma época que criança era só criança e se preocupava mais em brincar e se divertir. Minha mãe estava danada comigo e queria que eu cumprimentasse o presidente, assim como todo mundo que estava por lá, mas acabei contrariando a todos porque era o meu jeito de menina”, explicou Rachel Clemens.
 
Ela contou que “não estava muito impressionada com o fato de que iria almoçar perto do presidente e só depois, quando voltamos para o salão, que percebi o burburinho das pessoas comentando minha indelicadeza, mas me lembro que meu pai não chegou a me repreender.

Daquele período eu ficava sabendo que muita gente tinha medo da polícia, mas nem sabia o porquê”, lembrou Rachel Clemens. Ela contou que se orgulhava da foto pelo valor simbólico que ela representou para muitas pessoas.
 
Ela disse que procurou o autor da imagem, o fotógrafo Guinaldo Nicolaevsky, que também tentou descobrir quem era a personagem da foto. O fotógrafo, que morreu em 2008, chegou a fazer uma campanha na internet para tentar descobrir o nome da menina. “Toda vez que via alguma equipe de reportagem nas ruas, perguntava se conheciam o autor da tal foto que tinha uma menina marrenta que não cumprimentou o presidente. Mas ninguém dava atenção, então não cheguei a conhecê-lo”, disse
 
A procura pela garotinha da foto mobilizou muitas pessoas nas redes sociais e, quando descobriu que era procurada, Rachel decidiu abrir o jogo e contar como foi o dia em que “sem querer” entrou para história.

A identidade da menina que se recusou a cumprimentar o presidente general foi revelada pelo facebook. Ela postou a famosa foto em sua página com a pergunta: adivinha quem era essa garotinha? Logo, sua página foi inundada com comentários de pessoas de todo o Brasil.
 
  Ela cresceu em Belo Horizonte, formou-se em comércio exterior, fez pós-graduação no Instituto Tecnológico da Aeronáutica e atuou profissionalmente em diversos países.  Rachel Clemens não resistiu a uma parada cardiorrespiratória, morreu muito jovem, com 41 anos, dia 11 de março de 2015, em Belo Horizonte. Seu corpo foi velado em na Capital mineira e enterrado dia 13, em Juiz de Fora, na Zona da Mata de Minas, como um símbolo da democracia. Ela deixou uma filha, Clara. 
 
Ícone da resistência
 
A imagem, feita pelo repórter fotográfico Guinaldo Nicolaevsky, se tornou um ícone da resistência aos governos militares e ficou famosa no mundo todo. Era uma visita oficial de Figueiredo à cidade de Belo Horizonte, para lançamento do automóvel a álcool, quando uma menininha de uniforme escolar se negou a dar a mão ao último presidente do longo período de ditadura.
 
Havia muitos fotógrafos, mas a maioria não registrou o momento constrangedor por motivos óbvios. Nicolaevsky, no entanto, deixou o instinto jornalístico dominar o medo da repressão e fez diversas imagens das tentativas frustradas do general tentando convencer a garotinha a cumprimentá-lo.
 
Garotinha infiltrada?
 
O rolo de filme do fotógrafo chegou a ser confiscado por registrar o presidente militar passando vexame, e houve investigação para saber se a tal menina havia sido “infiltrada” e orientada a fazer a “má-criação” carregada de significado político para a época.
 
Num texto que escreveu para um colega, o fotógrafo registrou o episódio. “Lançamento do carro à álcool em Belo Horizonte. A imprensa mineira e a nacional estavam presentes e um grupo de crianças foi levado ao Palácio da Liberdade para cumprimentar o presidente Figueiredo. Deu zebra: a primeira da fila negou o aperto de mão ao Presidente da República, apesar dos pedidos dos fotógrafos. Percebi que não aconteceria o aperto e fotografei”, contou.
 
Segundo Guinaldo, logo que fez a imagem ele percebeu a conotação política da foto. “Corri para a redação para revelar e transmitir a foto para o Rio. Para minha surpresa eles não publicaram a foto! Desconfiaram! Queriam o “cumprimento”. Fui ameaçado de dispensa caso não entregasse o fotograma. Foi exigido que mandasse o filme sem cortá-lo no primeiro vôo para o Rio. O que foi feito. Não publicaram nada… resolvi por minha conta, mandar para outros veículos, que publicaram com destaque até no exterior”, relatou.
 
Motivo despolitizado

 
Em 2011, Rachel finalmente explicou em público porque não cumprimentou o último general que presidiu o Brasil na época dos governos militares para uma rede de televisão.
 
Na internet, ela divulgou um post no próprio blog resumindo a estória. Segundo Rachel, o pai dela, chefe do Dnit em Minas Gerais, teria de participar de um almoço com o presidente. Ela soube na véspera, e exigiu da mãe ser levada para ver o general, de quem se lembrava por ver um quadro humorístico de Chico Anysio na tevê.
 
Chegando no Palácio da Liberdade, onde o presidente receberia um grupo de estudantes na solenidade, ela conseguiu se “infiltrar” e queria apenas avisar ao presidente que seu pai almoçaria com ele. Ele quis cumprimentá-la mas, como ela ainda não tinha conseguido contar ao chefe da nação do encontro que ele teria com o pai dela, houve a recusa.
 
Rachel conta que era ‘birrenta’ e falante. Como não tinha falado o que queria, se negava a cumprimentar Figueiredo que insistiu ante uma plateia constrangida e incrédula.
  
Revolução de 64
 
O golpe de estado que instaurou a ditadura militar no Brasil em 1964 completa 57 anos em 2021. O regime de exceção durou até 1985. Nesse período, não houve eleição direta para presidente. O Congresso Nacional chegou a ser fechado, mandatos foram cassados e houve censura à imprensa.
 
Em 2019, no início do novo governo, com um militar no comando, trouxe  uma discussão sobre se a data deveria ser celebrada, após o presidente Jair Bolsonaro determinar ao Ministério da Defesa que fizesse as “comemorações devidas” sobre o golpe. O que acabou virando uma disputa judicial e fez o chefe do Planalto recuar em suas declarações.
 
Diante disso, o que pensaria sobre essa polêmica a protagonista de uma das fotos mais famosas na história recente do Brasil, Rachel Clemens Coelho, que, aos cinco anos de idade, em 1979,  se negou a cumprimentar o então presidente do Brasil, general João Baptista Figueiredo?

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