03/09/2021 às 21h13min - Atualizada em 03/09/2021 às 21h13min

O trágico fim do tesoureiro Braguinha completa 84 anos

Três mulheres ficaram viúvas no mesmo dia

- Nilo Tardin
DDC News
Primeira Estação Ferroviária de Colatina foi desativada em 1949 e demolida pouco tempo depois. Foto: Ilustração Web.
 
 
 Juquita era um cara correto. Cumpridor dos seus deveres.  Pagou caro por isso. A ponto de perder a vida.  

Os disparos perto da Estação de Colatina do cinzento ano de 1937 ecoam até hoje no imaginário coletivo de uma geração. Em 5 de junho daquele tempo, três mulheres ficaram viúvas no mesmo dia.

José de Oliveira Braga Júnior, o Braguinha no fervor dos seus 35 anos nunca havia engatilhado o ferrolho de uma arma de fogo.  

O trabalho diário executado com mesura era dar conta das contas do município de Colatina, noroeste capixaba.  

Fora nomeado Tesoureiro Municipal ( cargo que correspondia, hoje ao secretário de finanças)
 no início do mandato do lendário médico e prefeito de Colatina Justiniano de Mello e Silva (1932 a 1934). Justiniano trouxe Braguinha quando saiu de Minas Gerais para chefiar Colatina, sabedor dos dotes catedráticos do Juquita, seu apelido familiar.

Nascido na virada do século em 1902 a junção dos astros rendeu bons frutos ao Braga Júnior.  Do casamento com Izolina Pereira Braga, quatro anos mais jovem. Além da prole, nasceu a realização profissional de guarda-livros.

“Nessa época papai ainda morava em Mutum (MG). Tinha um cunhado rico, João Costa. Abriu mercearia. Não deu muito certo. O talento para números chamou atenção. Um dia João Costa bradou: ‘temos que mandar o Juquita estudar. Fazer Academia de Comércio em Juiz de Fora (MG)”, contou seu filho, o professor e mestre das letras colatinense Olney Braga, 84.  A faculdade era considerada, na época, a Havard brasileira.

Era bom de cálculo. De cabeça, também. Nada escapava na ponta certeira da caneta do Braguinha.  A escrituração era feita à mão, na caneta-tinteiro, mata-borrão e caligrafia impecável. 

Levava a vida sem atropelos até que uma afronta descarada, o obrigou a apertar o gatilho. O revólver nem era seu. Tinha sido emprestado por um amigo 
José Alves de Souza da Loja Maçônica . Quando a tragédia do tesoureiro Braguinha aconteceu, Olney tinha cinco meses e cinco dias de nascido.

“Meu nome surgiu de um anúncio de jornal. Um famoso médico Olney Passos punha propaganda aos domingos. ‘Esse menino vai se chamar Olney, disse Braguina a esposa Izolina’. E pronto”, revelou. Pelo visto, Braguinha levava jeito para achar nomes incomuns aos filhos. Orenides então com 8 anos na ocasião do trágico duelo ao meio-dia e Ostervaldo, que morreu neném. 

A prefeitura trocara de mãos. A dinâmica temporal do crime começa a tomar rosto.   Injuriado com emancipação de Baixo Guandu, a mando do interventor Punaro Bley, Justiniano jogou a toalha. Renunciou em pouco menos de dois anos de governo.  

Em meados de 37 era alta a falta de pagamento de água e luz na cidade mal iluminada por gerador a óleo, com hora certa a ser desligado.   Aí surgiu a combinação fatal.   O novo prefeito coronel Antônio Pinto conservara Braguinha no comando do cofre da prefeitura, a pedido de Justiniano seu antecessor.

O coronel tinha duas filhas. Ambas casadas com dois influentes advogados: Agilberto Pires e Adolfo Mafra. Agilberto tinha fama de agitado, nervoso e destemido, ao contrário do afável Braguinha, conta Olney.

E o caso foi resolvido à bala.  Três homens mortos. Três mulheres sem par e filhos nas costas.
 
Antes de viajar, o prefeito Antônio Pinto chamou o tesoureiro no gabinete. Deu a ordem de suspender o serviço. O mandado foi cumprido a risca. Começou de cima. Pela nata. Pra quê. Cedo o infortúnio bateu-lhe à porta.

- Manda dois avisos aos devedores. Não mais. Depois de três dias sem pagar, pode cortar.


As ameaças tiraram o sono e a paz da família.  Um amigo de Agilberto da alta recebeu a nota. 

Agilberto era genro do prefeito e  político, suplente de deputado. Foi à prefeitura conferir com Braguinha.  O bate-boca saiu faísca.Dr. Agilberto houvera prometido que, caso o Braguinha cortasse a luz e água o próximo encontro seria decisivo entre eles. 
 
Depois da discussão vivia acabrunhado. Passou a andar prevenido. Não estava disposto a aturar humilhações.

 Olney destaca que seu pai seguiu a rotina de sempre naquele fatídico dia 5 de junho.  

Almoçou. De mãos no bolso, caminhou devagar até a estação. Eram 11h30. Hora da chegada do trem de Vitória. Comprou o jornal A Gazeta. Encostou-se ao poste,  o pé de apoio na altura do joelho.  Abriu o exemplar do dia.  

De inopino, Agilberto arranca-lhe o jornal das mãos. Desferiu duas bofetadas no rosto. Um tapa em cada face. “Você bateu na cara de um homem. Jamais baterá de novo na cara de ninguém’. Saca do revólver. Dá um passo atrás. Dispara. Acerta um tiro na barriga do advogado, também armado. Se refugia no Cartório de Paulo Rezende – atual drogaria Pacheco.

Ao sair escoltado por dois policiais, aparece o Adolfo Mafra – também genro do coronel-prefeito e atira no Braguinha.  O sargento Mathias descarrega o revólver na cabeça do advogado.

Mafra morreu no local. O advogado e o tesoureiro foram socorridos no trem para Vitória.  Braguinha morreu na altura de Acyoli. Agilberto na mesa de cirurgia, rememora Olney.

“ O desfecho foi comovente para todos. Minha mãe tinha uma filha criança, eu recém-nascido. A esposa do Agilberto estava grávida de oito meses.  A família do Mafra destroçada. A do prefeito nem se fala.  Sobreviver naquela época era difícil. A prefeitura não dava pensão às viúvas.  Mamãe não conseguiu retirar os 4 mil réis de economia do meu pai depositado na Casa Bancária Antônio Pagani. O banco faliu. Deixou muitas famílias humildes na mão”, frisou o professor Olney.

Nas voltas que mundo dá, dona Izolina conhecida como Filhilha, bordara todo  o enxoval do futuro bebê, que também se chamaria Agilberto, em homenagem ao pai.

 
 
 Saiba 

Braga Júnior é o nome de uma das ruas da Ladeira Santa Cecília - Centro de Colatina
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   
  
 

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