15/05/2020 às 16h27min - Atualizada em 15/05/2020 às 16h27min

O Sumiço da Madonna de Baunilha

Rara obra renascentista pode ter vindo parar em Colatina na bagagem de imigrantes italianos

- Nilo Tardin
Afresco pintado na Igreja de Baunilha no ano de 1950
O quadro de uma santa estimado por baixo em US$ 47 milhões de dólares no enigmático negócio de artes sumiu, sem deixar rastros no distrito de Baunilha em Colatina, noroeste capixaba.

Se comprovada a autenticidade da relíquia renascentista e restituída aos herdeiros, a fabulosa fortuna imaginária seria div­­­idida entre centenas de ascendentes de Ambrósio Morandi e Francesca Brumatti.

A pintura da Virgem com o Menino Jesus, recém-atribuída a Rafael Sanzio (1483 – 1520) supostamente veio da Itália na bagagem da família do imigrante Ambrósio, no fim do século 19.

Diz a lenda que  a encantadora tela não assinada media na moldura 1 m x 40 cm. Enfeitou durante décadas as paredes da casa de taipa coberta de tabuinhas nas imediações da ferrovia, até ser carregada por um restaurador italiano em 1950.

Com o dólar nas alturas e a quantia  atualizada no real abaixo de merreca, os sortudos, receberiam pitadas do equivalente a uma bolada da mega-sena da virada: R$ 282 milhões.

Bepe - Giussepe Irlandini-, como era conhecido o brilhante pintor e restaurador na época com 26 anos, foi desleal para ficar com a ‘Madonna e o Bambino no colo’, conta Pedro Dias, 77 anos bisneto de Ambrósio.

“Antes de ir embora, logo que terminou o afresco na cúpula da Igreja de Baunilha, Bepe – persuadiu Rodolfo Spairani - guardião da Madonna após a morte de Ambrósio-, a levar o quadro para o Rio de Janeiro no intuito de certificar seu valor. Nunca mais voltou. Deixou como ‘garantia’ uma espingarda e uma garrucha”, recordou. Pedro destaca o extremo cuidado dos italianos ao embalar a peça encapada com fardos e fardos de algodão protegida de estrados de madeira.  

Logo depois da ida em desabalada carreira de Irlandini e seu auxiliar Mássimo, jornais do Rio noticiavam que uma célebre pintura de Rafael Sanzio deixara o Brasil clandestinamente.

“Sem dúvida era o quadro que minha mãe Idalba Morandi, a dona Bim dizia ser valioso. Ficou na cabeceira da cama do bisnono até o fim da vida. Spairani era um homem simples e correto. Como poderia imaginar que guardava uma fantástica riqueza em casa?”   

Ele recorda a persistência do seu falecido irmão Tião Dias em reconstruir o caso da Madona de Baunilha. Na tenaz busca de pistas, Tião descobriu que o quadro era o último da coleção pintada por Rafael Sanzio de Urbino.

Rafael viveu ao lado de Leonardo Da Vinci e Michelangelo. Produziram obras eternizadas no mundo das artes.

O relato das pinceladas perfeitas no quadro a óleo da Madonna, permite o ex-tabelião Orlando Morandi Júnior, o Dudu Morandi, também bisneto de Ambrósio -, presumir que o quadro seja um autêntico Rafael.  

 “Uma cópia ou gravura não despertaria tanta cobiça. Continua sumido até hoje”, resumiu.
 
Artistas italianos eram cativantes e exímios atiradores

Pow. Stow, o tiro certeiro da carabina partiu do atirador deitado na mata com a presa na mira. O balaço acertou em cheio o lombo da ave distraída no toco do jacarandá, logo abocanhada na refeição do dia.

A cena de Giussepe - na caça, longe dos andaimes e pincéis – ainda aparece nítida na lembrança de Pedro Dias devido à destreza no gatilho. Mas foi com tintas que deixou a marca indelével no teto da sacristia.

 “Minha mãe contava que o quadro da família veio enrolado no colchão de pena de ganso. No meu entender foi roubo. Deve ter vendido por um dinheirão no mercado negro”, acentua Pedro atualmente residindo na Grande Vitória.

Ambrósio faleceu aos 93 anos. Francesca na casa dos 80, diz Dudu Morandi. Eles chegaram com um filho pequeno a Baunilha em 1893 em fuga da fome, frio e da Europa devastada por Napoleão.  

Dudu revela que teve sua cidadania reconhecida – Passaporte Vermelho- com a documentação deles. “Visitei o norte da Itália. Estive no povoado de Siesco na zona rural da Comuna de Cremona, de onde saíram. Lá não tem hotel nem pensão. Meu pai Orlando contava que o avô Ambrósio ‘não bebia água, só vinho. “ia para roça com ferramentas e a cabaça de vinho na cinta”, acentuou.

Sem tecer teorias da conspiração, Morandi julga que o restaurador já tenha vindo de encomenda para apanhar o quadro, talvez até contratado pela máfia de batina européia.

A magnífica cena da Assunção de Nossa Senhora na cúpula da Igreja centenária de Baunilha, rodeada de anjinhos em adoração, guarda um segredo. O artista se inspirou em rostos de crianças da época para dar vida ao painel gigante, segundo José Dias Filho  da quinta geração dos primeiros imigrantes.

José Dias destaca que por algumas vezes tentou identificar o quadro ao mostrar imagens no computador a sua avô dona Bim. “Nessa altura ela não se lembrava mais”. José Dias sustenta que mesmo na possibilidade de discípulos de Rafael Sanzio tenham feito os arremates da Madonna de Baunilha, ‘não reduz seu valor histórico e monetário’.

  Lavrador viu o quadro da santa na infância

“Bastiani...Bastiani”, balbuciava Ambrósio no fim da vida ao apontar para a Virgem Maria com lágrimas nos olhos,  num claro aceno de que segundo sua  vontade, o quadro deveria ficar para o bisneto Sebastião Dias, já falecido, recorda sua irmã Regina Dias conforme relato familiar.

O lavrador Fiorindo Bolzani, 87 anos, o Nini vive no antigo casarão onde funcionava a casa comercial dos Delacquas, uma família da mesma genealogia do casal de imigrantes.

Nini garante que quando menino chegou a ver a 'Madonna de Baunilha." “Ih. Vi de perto foi muitas vezes. A santa era escura. Lembro bem. Tinha 14 anos quando pescava moréia no Rio Baunilha para os italianos Bepe e Mássimo comer com polenta. Carregava água no pipote para eles. Ficava admirado de ver o Bepe trabalhar. Molhava a pontinha do pincel na tinta e as figuras iam aparecendo igual mágica”, recorda Nini.

Precavido com o avanço da pandemia do coronavírus devido à proximidade do casarão com BR-259, Nini mantém distância ao contar retalhos do caso. Confirma que foi Rodolfo Spairani, que ficou com o quadro era casado com sua irmã. “Foi enganado pelo Bepe”, disse.

Quanto a herança milionária alerta o advogado Darildo Bissi Júnior, somente teria direito, as pessoas da mesma linhagem do pioneiro casal – Ambrósio e Francesca -, de colonizadores da região.
 
Quem Foi:

Giussepe Irlandini, o Bepe nasceu em Bolzano, na Itália em 1924 e faleceu no Rio de Janeiro em 1997. Dono de uma técnica aprimorada adquirida na Academia de Belas Artes de Veneza.

Desembarca no Brasil 1948. Chega a Vitória (ES) em 1949 para criar pinturas no túmulo do padre Anchieta, no Palácio do Governo, murais em igrejas da capital, Muqui e Baunilha. Abre no Rio a Galeria Irlandini em 1968. Em 1995 foi acusado pela polícia carioca por falsificação de obras de artes de mestres da pintura, conforme o jornal O Globo.
 
Localizador

Baunilha é um distrito do município de Colatina, no Espírito Santo. Foi criado pela Lei Estadual n.º 1.093, de 05-01-1917 e anexado à vila de Linhares. Possui cerca de 1 300 habitantes.
 
Origem do Nome

O engenheiro Antônio Araújo Aguirre revela na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo (IHGES) de 1926 que o nome Baunilha foi por ele dado devido a existência de plantas com essa denominação. “Dobradas as vertentes por sobre pedras em grande parte coberta por baunilhas, despertou em todos alegria pelo encontro de novas vertentes perenes que foram designadas Córrego Baunilha”.
 
 
Estação Baunilha

A Estação da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM) de Baunilha foi inaugurada a 30 de agosto de 1906.  Os trilhos foram removidos no ano de 1947. Bem preservada, funciona no prédio desde 1954, uma sortida lanchonete de beira de estrada.

Números

3,3 milhões de imigrantes atracaram no país entre 1870 e 1920.

Nos áureos tempos da grande imigração, os italianos representaram 42% desse total vindos para o Brasil.

1,4 milhões deixaram a Itália em busca de dias melhores.

Santa Teresa, nas montanhas capixabas ostenta o título de primeira cidade brasileira colonizada por italianos.

Fonte: IBGE
 
 
 
 
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